Estudo alerta: corrente oceânica vital para o clima enfraquecerá 60% mais do que o previsto
Corrente oceânica vital enfraquecerá 60% mais que o previsto

Corrente oceânica vital para o clima global enfrenta enfraquecimento muito mais severo do que se imaginava

Uma corrente oceânica fundamental para a regulação do clima em todo o planeta está prestes a enfraquecer de forma muito mais significativa do que os cientistas haviam projetado anteriormente. Esta é a alarmante conclusão de um estudo publicado na revista Science Advances por pesquisadores da Universidade de Bordeaux e do centro de pesquisas Inria, na França.

O que é a AMOC e por que ela é tão importante

O sistema em questão é a AMOC (Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico), uma espécie de "esteira transportadora" oceânica que distribui calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Este mecanismo funciona da seguinte maneira:

  • Águas quentes e salgadas viajam dos trópicos em direção ao norte
  • Ao se aproximarem do Ártico, essas águas esfriam e afundam
  • Elas então retornam às profundezas oceânicas, completando um ciclo vital

Este processo, conhecido como circulação termohalina, é responsável por distribuir aproximadamente 90% do calor global armazenado nos oceanos, influenciando diretamente os padrões climáticos em diversas regiões do planeta.

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Novo método revela projeções muito mais pessimistas

Os modelos climáticos tradicionais do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) previam uma desaceleração de 32% na AMOC até 2100, considerando um cenário de emissões intermediárias. No entanto, a nova pesquisa francesa chegou a uma estimativa muito mais preocupante:

  • 51% de enfraquecimento até o final do século
  • Margem de erro de 8 pontos percentuais
  • Representa uma queda 60% mais intensa do que as projeções anteriores

A diferença crucial está na metodologia empregada. Os cientistas combinaram modelos climáticos com dados reais de temperatura e salinidade da superfície do Atlântico, identificando quais modelos melhor reproduzem as condições oceânicas observadas. Surpreendentemente, os modelos mais fiéis à realidade são justamente os mais pessimistas sobre o futuro da AMOC.

O erro nos modelos anteriores

Os pesquisadores descobriram que os modelos climáticos tradicionais apresentavam uma falha significativa na representação do Atlântico Sul. Eles costumavam mostrar a salinidade superficial dessa região como mais baixa do que realmente é, o que fazia a circulação oceânica parecer mais estável do que de fato está.

Ao corrigir esse ponto com dados observacionais, o enfraquecimento projetado aumentou substancialmente. Segundo o estudo, aproximadamente 47% da diferença entre as projeções antigas e as novas está diretamente ligada à salinidade no Atlântico Sul.

Consequências alarmantes para o clima global

A AMOC já se encontra no seu ponto mais fraco em 1.600 anos, e sinais de alerta sobre um possível colapso vêm sendo identificados desde 2021. O novo estudo não afirma que o colapso é inevitável neste século, mas indica que o sistema está muito mais próximo desse limiar do que se imaginava.

Um enfraquecimento de 51% se enquadra no que o próprio IPCC classifica como "enfraquecimento substancial" da AMOC, com consequências graves e amplas:

  1. Deslocamento para o sul da zona de convergência intertropical, afetando as chuvas que alimentam a agricultura do Sahel, região semiárida da África que já enfrenta crises alimentares recorrentes
  2. Invernos muito mais rigorosos e secas intensas na Europa Ocidental
  3. Elevação adicional do nível do mar ao redor do Atlântico

Fatores agravantes e limitações do estudo

Os pesquisadores reconhecem uma limitação importante em seu trabalho: os modelos utilizados ainda não incorporam o derretimento da calota de gelo da Groenlândia, que está injetando água doce no oceano e pode acelerar ainda mais o processo de enfraquecimento da AMOC.

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Os autores destacam que futuros estudos devem incluir esse fator, que poderia tornar as projeções ainda mais preocupantes. Eles também enfatizam que identificar onde os modelos climáticos erram é tão importante quanto projetar o futuro, pois permite calibrar melhor as estratégias de adaptação e produzir estimativas mais confiáveis sobre um dos sistemas mais complexos do planeta.

Contexto científico mais amplo

Em fevereiro de 2025, um estudo do serviço meteorológico britânico e da Universidade de Exeter, publicado na revista Nature, havia indicado que o colapso completo da AMOC neste século era improvável, mas que o sistema continuaria enfraquecendo. O novo artigo francês não contradiz essa conclusão, mas revela que esse enfraquecimento será consideravelmente maior do que todas as estimativas anteriores haviam projetado.

A pesquisa representa um alerta importante para a comunidade científica internacional e para os formuladores de políticas climáticas, destacando a necessidade urgente de revisar as projeções e preparar estratégias de adaptação para um cenário climático mais severo do que o previsto.