COP15 discute papel estratégico do Pantanal e animais migratórios no combate às mudanças climáticas
Representantes de mais de 130 países estão reunidos nesta semana em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, para debater estratégias de proteção às espécies migratórias e ações contra as mudanças climáticas durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, conhecida como COP15. Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o Pantanal, um dos principais destinos dessas espécies, desempenha um papel fundamental no equilíbrio do clima global.
Preservação de animais migratórios vai além da proteção de espécies
Segundo ambientalistas e pesquisadores presentes no evento, garantir rotas migratórias seguras e preservar animais não evita apenas a extinção de espécies. A medida também mantém o funcionamento saudável dos ecossistemas e contribui significativamente para reduzir os impactos das mudanças climáticas em escala planetária.
A Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias reúne governos, cientistas e organizações internacionais para discutir políticas de conservação da fauna em âmbito global. Para o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Rodrigo Agostinho, o Brasil ocupa posição central nesse debate devido à sua extraordinária diversidade de espécies.
"O Brasil é um dos países com maior número de espécies de aves do mundo. Temos 1.979 espécies, sendo que pelo menos 230 são migratórias", afirmou Agostinho. "Elas saem do rigoroso inverno do Hemisfério Norte e vêm para a Amazônia, Pantanal e até o Rio Grande do Sul, exercendo papel crucial no controle de insetos e na polinização."
Pantanal como ambiente crucial para espécies migratórias
O presidente do Ibama destacou ainda que o Pantanal representa um dos ambientes mais importantes do planeta para a preservação da vida selvagem. "É muito representativo que esse evento aconteça no Pantanal, que é um local dos mais relevantes do mundo para a preservação das espécies migratórias", completou.
Durante os painéis da conferência, especialistas reforçaram que as espécies migratórias não são apenas vítimas das mudanças climáticas, mas também agentes ativos no combate a esses fenômenos. O ambientalista e diretor do Instituto Conservação Brasil, Nondas Okiama, explicou que garantir rotas seguras para esses animais é essencial para manter o equilíbrio ambiental.
"Se conseguirmos garantir que essas espécies façam suas rotas migratórias com segurança, elas não contribuem apenas para a saúde do Pantanal, mas para a saúde do planeta como um todo", afirmou Okiama.
Onça-pintada e antas como aliadas climáticas
No coração do Pantanal, animais icônicos como a onça-pintada desempenham papel fundamental no equilíbrio ambiental. O médico veterinário Diego Viana explicou que espécies como a onça-pintada ajudam a manter o funcionamento natural do ecossistema.
"A onça-pintada, como predadora do topo da cadeia alimentar, equilibra tudo: fauna e flora. Sua presença é um indicador de qualidade ambiental", disse Viana. "A conservação de onças que acontece no Pantanal já é um exemplo para o mundo inteiro."
Além dos animais, a vegetação pantaneira também exerce papel crucial no combate às mudanças climáticas. Segundo o veterinário, manter a vegetação intacta é essencial para reduzir a quantidade de carbono na atmosfera.
"As árvores têm papel fundamental, mas o que estamos vendo cada vez mais é que a pastagem pantaneira também sequestra carbono", explicou Viana. "Quanto mais carbono sequestrado, menos carbono na atmosfera e um planeta mais habitável teremos."
Outro exemplo citado pelos especialistas são as antas, consideradas verdadeiras aliadas das florestas. O biólogo e diretor de comunicação da SOS Pantanal, Gustavo Figueirôa, detalhou o papel desses animais.
"As antas são as jardineiras das florestas. Elas comem sementes e as dispersam pelas fezes, literalmente plantando florestas", afirmou Figueirôa. "Isso ajuda a sequestrar carbono e mostra como a relação entre árvores e animais está ligada no combate às mudanças climáticas."
Cooperação internacional para proteger rotas migratórias
As discussões da COP15 também destacam que proteger as rotas migratórias exige cooperação entre países, já que muitos animais atravessam fronteiras durante suas viagens. Isso torna necessária a criação de políticas internacionais alinhadas.
Segundo Nondas Okiama, essa colaboração é essencial: "As espécies que migram não estão limitadas às barreiras geopolíticas. Garantir rotas seguras depende de acordos entre países."
Pantanal como modelo global de conservação
Especialistas destacam que a conservação do Pantanal já serve como modelo para outras regiões do mundo, pois o bioma abriga uma das maiores biodiversidades do planeta e recebe espécies migratórias de diferentes regiões.
Para Rodrigo Agostinho, preservar esses animais é uma responsabilidade coletiva: "As espécies que vivem no planeta além de nós têm direito especial de continuar existindo. Seja um grande predador como a onça-pintada ou uma pequena andorinha, todos são importantes na manutenção do nosso equilíbrio."
Vida selvagem como solução climática
Durante os debates da COP15, especialistas reforçaram que a conservação da fauna deve ser vista como parte das soluções climáticas, não apenas como proteção ambiental. A ideia central discutida no evento é que a vida selvagem funciona como uma infraestrutura natural, capaz de regular o clima, transportar nutrientes e manter ecossistemas saudáveis.
Para os pesquisadores, proteger os animais migratórios significa proteger também o futuro do planeta, e o Pantanal tem papel decisivo nessa missão global.



