A ciência do desconforto: o complexo design dos assentos de avião na classe econômica
O cientista e analista político Vaclav Smil apresenta em seu mais recente livro, O tamanho das coisas, uma análise profunda sobre como proporções e dimensões governam o mundo, desde processos biológicos e geológicos até economias e tecnologias. Publicado pela editora Intrínseca, a obra revela como o design cotidiano enfrenta limites fundamentais, ilustrados de maneira emblemática pelo caso das poltronas de classe econômica em aviões, onde o conforto humano colide diretamente com a lógica do lucro das companhias aéreas.
Da ergonomia histórica aos desafios modernos
Todos os objetos projetados para uso humano devem se adaptar às dimensões do nosso corpo, considerando a capacidade dos músculos e tendões de permanecerem em posições confinadas, além de respeitar a acuidade visual. Os designs tradicionais eram frequentemente limitados pelos materiais e processos de fabricação disponíveis em suas épocas. Por exemplo, uma carruagem luxuosa do século XVIII podia apresentar entalhes requintados e almofadas nos assentos de madeira, mas carecia de molas de aço para absorver os solavancos das estradas não pavimentadas, forçando passageiros a suportarem horas de desconforto contínuo.
Com o advento das ferrovias, a velocidade de transporte aumentou significativamente, incentivando viagens mais longas. No entanto, permanecer sentado em bancos de madeira durante jornadas intermunicipais prolongadas gerava seu próprio tipo de desconforto persistente. Ao longo do século XIX, o design de objetos cotidianos transformou-se em uma questão de engenharia premeditada e proposital, guiada por estudos antropométricos que forneceram a base para o novo campo científico da ergonomia.
A evolução da ciência do trabalho
O termo ergonomia, derivado do grego ἔργον (ergon, que significa trabalho), teve seu interesse original focado na melhoria e otimização de tarefas laborais. Curiosamente, não foram cientistas alemães ou franceses, mas sim o polonês Wojciech Jastrzębowski quem introduziu o conceito e, em 1857, escreveu o primeiro livro sobre a "ciência do trabalho baseada no conhecimento derivado da compreensão da natureza".
Durante o século seguinte, esse conhecimento foi aplicado principalmente para otimizar tarefas no ambiente de trabalho e intensificar a produtividade. Contudo, com o aumento da renda disponível e a ascensão das sociedades de consumo, a atenção direcionada ao design expandiu-se para além do local de trabalho, visando maior conforto dentro de casa e durante viagens. Atualmente, princípios ergonômicos baseados em fundamentos antropométricos são empregados tanto no projeto de ambientes de trabalho — como cabines de grandes tratores ou cockpits de jatos comerciais — quanto no design de eletrônicos, móveis e até mountain bikes.
O paradoxo do design de assentos na era moderna
Considerando que a maior parcela da população ativa hoje trabalha em empregos que exigem permanecer sentada por longos períodos, e devido ao uso intensivo de dispositivos eletrônicos em casa, nossa sociedade tornou-se a mais sedentária da história da humanidade. Não é surpreendente que, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs), provavelmente mais de um terço das pessoas que ficam sentadas por oito horas ou mais diariamente desenvolverão algum tipo de distúrbio musculoesquelético.
Projetar bons assentos é, portanto, mais crucial do que nunca, mas essa busca não está isenta de problemas e limitações significativas. Assentos desconfortáveis não desapareceram quando bancos ou banquetas de madeira pré-modernos foram substituídos por uma vasta variedade de cadeiras estofadas e assentos de plástico moldado. Nada ilustra melhor as dificuldades da implantação de assentos confortáveis em larga escala do que uma análise detalhada dos assentos das companhias aéreas.
As medidas críticas do design aeronáutico
As principais medidas de referência que orientam o design das poltronas de avião incluem:
- Altura do assento e do cotovelo
- Distância entre as nádegas e os joelhos
- Largura do quadril, cotovelo e ombros
Se qualquer uma dessas dimensões for muito pequena ou excessivamente grande, permanecer sentado por períodos prolongados pode transformar-se em um teste de resistência extremamente desconfortável. Enquanto uma pessoa com assentos mal projetados em casa pode resolver o problema levantando-se, caminhando ou escolhendo outro assento — opções também disponíveis, embora de forma mais limitada, em muitas viagens de trem —, essa flexibilidade praticamente inexiste nos voos modernos na classe econômica.
O fenômeno em larga escala da aviação comercial
Décadas atrás, antes da desregulamentação das companhias aéreas e do crescimento explosivo do turismo de massa, os fatores de capacidade — especialmente em voos de longa distância — eram consideravelmente menores. Nos Estados Unidos, por exemplo, os voos eram ocupados apenas pela metade no início da década de 1970, em comparação com mais de 80% de ocupação em todo o mundo imediatamente antes da pandemia de Covid-19.
Além disso, o design dos assentos em voos de longa distância não se resume apenas ao conforto básico. Em indivíduos suscetíveis, como idosos, hipertensos e pessoas com problemas cardiovasculares e digestivos, passar horas imóvel pode levar ao desenvolvimento de condições graves como trombose venosa profunda ou embolia pulmonar — frequentemente apelidadas de "síndrome da classe econômica" — além de distúrbios gastrointestinais.
O conflito irreconciliável: conforto versus lucratividade
Como consequência desses riscos à saúde, os assentos — especialmente em voos com duração superior a seis horas, sendo que a conexão direta mais longa atualmente programada, entre Nova York e Cingapura, leva impressionantes 18 horas e 40 minutos — deveriam ser o mais espaçosos e confortáveis possível. No entanto, esse objetivo nobre entra em conflito direto com o imperativo do lucro extremamente competitivo do transporte aéreo em massa, que depende fundamentalmente do aumento contínuo do número de passageiros por voo.
Antes da pandemia de Covid-19, o total anual de passageiros e a proporção passageiro-quilômetro atingiram níveis recordes históricos, após uma década de aumento constante. Um assento de avião na classe econômica representa, portanto, o exemplo perfeito de demandas de tamanho impossíveis de conciliar — onde as exigências contraditórias de "aumente o espaço!" e "reduza os custos!" coexistem tensionadamente — tornando-se a causa principal do desconforto em larga escala experimentado por milhões de passageiros globalmente.
As dimensões mínimas e a realidade do transporte aéreo
As dimensões mínimas necessárias para um assento adequado são relativamente óbvias: deve ser alto o suficiente para acomodar as pernas dobradas no ângulo correto, largo o suficiente para acomodar confortavelmente um adulto médio, e a distância entre as poltronas deve permitir, no mínimo, espaço suficiente para acesso e para que os passageiros se sentem com as pernas adequadamente posicionadas. E, uma vez que viajar de avião transformou-se em uma experiência verdadeiramente massificada, esses espaçamentos devem ser capazes de acomodar pelo menos 95 de cada 100 passageiros, considerando a diversidade de biotipos humanos.
O livro O TAMANHO DAS COISAS, de Vaclav Smil, com tradução de Renato Marques e publicado pela Editora Intrínseca em 320 páginas, está disponível na versão impressa por R$ 79,90 e como e-book por R$ 54,90. A obra oferece uma análise provocadora sobre como fatos e estatísticas frequentemente desconfortáveis explicam aspectos fundamentais do mundo contemporâneo, com o design dos assentos de avião servindo como caso emblemático dessa dinâmica complexa entre necessidades humanas e imperativos econômicos.



