Rio Branco: recuo de enchente revela destruição após 50 anos
Recuo de enchente revela cenário de destruição em Rio Branco

O recuo das águas que inundaram Rio Branco começou a revelar, nesta quarta-feira (31), um cenário extenso de destruição, lama e acúmulo de lixo nas ruas da capital acreana. Mesmo com a notícia esperada da redução do nível do Rio Acre, a preocupação entre os moradores permanece alta, diante dos estragos e dos riscos de contaminação. A cidade vive a pior enchente para o mês de dezembro em 50 anos, com mais de 20 mil pessoas atingidas diretamente pelas consequências das fortes chuvas.

Cenário de destruição e preocupação com saúde

Com a vazante, o que antes era um mar de água agora se transformou em um terreno coberto por sedimentos e detritos. Na região da Baixada da Sobral, uma das mais afetadas por concentrar bairros às margens do manancial, a dimensão dos danos ficou evidente. A dona de casa Maria Dorismar, que vive na Travessa Campinas, expressou seu temor. "Nós aqui, a maioria tem pessoa aqui doente, tem criança, recém-nascidos. E essa água é contaminada e tem um cheiro horrível", relatou. O contato com a água das enchentes eleva significativamente o risco de doenças, conforme alertam especialistas em saúde.

O aposentado Sanilton Carrillo, morador do bairro Habitasa, também compartilha da apreensão geral. Embora a água não tenha invadido sua residência, ela tomou conta da rua, espalhando resíduos. "Esse lixo é o mais problemático. Que o prefeito se lembre de mandar limpar tudo, porque o prejuízo é aqui", disse ele, esperançoso por uma operação de limpeza urgente nas áreas impactadas.

Emergência declarada e retorno aos lares

Diante da magnitude do evento, tanto a Prefeitura de Rio Branco quanto o governo do Acre decretaram situação de emergência. O decreto municipal, que já estava em vigor desde março de 2025 devido a cheias anteriores, foi mantido. Já o estado reconheceu a emergência de nível 2 em cinco municípios: Rio Branco, Feijó, Plácido de Castro, Santa Rosa do Purus e Tarauacá.

O fenômeno climático que causou as chuvas atípicas resultou em volumes extraordinários. Em Brasiléia, por exemplo, o acumulado de dezembro chegou a 436,80 mm, um valor 82% acima da média histórica para o período, que é de 222mm.

Com a redução do nível do Rio Acre, que marcava 14,44 metros na tarde desta quarta-feira (31) – menos de 50 centímetros acima da cota de transbordo –, famílias que estavam em abrigos começaram a retornar para suas casas. Mais de 100 famílias já iniciaram esse processo. No entanto, a Defesa Civil mantém alguns abrigos ativos, como o montado na Escola Anice Jatene, que também atende vítimas de outras cheias.

Um evento histórico e a vigilância contínua

O coordenador da Defesa Civil de Rio Branco, tenente-coronel Cláudio Falcão, contextualizou a gravidade da situação. O Rio Acre é monitorado desde 1970, e a única vez que se registrou um transbordamento de tamanha magnitude no mês de dezembro foi em 1975, há exatamente cinco décadas. No último sábado (27), o rio subiu assustadores 3,84 metros em menos de 24 horas, ultrapassando a cota de transbordo de 14 metros.

As famílias que permanecem nos abrigos recebem acolhimento, alimentação, atendimento em saúde e apoio social. Equipes da Defesa Civil seguem de prontidão para eventuais novas remoções, caso o nível do rio apresente uma nova elevação. A prioridade agora, além do apoio humanitário, é a limpeza e recuperação das áreas devastadas, um trabalho que se anuncia longo e desafiador para a cidade.