Tanatopraxista transforma despedidas com maquiagem que devolve dignidade aos falecidos
Tanatopraxista usa maquiagem para dar dignidade na despedida

Mulher transforma despedidas com maquiagem que devolve dignidade aos falecidos

Enquanto em vida a maquiagem costuma estar associada à autoestima e à forma como cada pessoa escolhe se apresentar ao mundo, na morte ela ganha um significado completamente diferente: torna-se um gesto profundo de cuidado, respeito e dignidade na despedida final. Esta é a nobre função exercida pela técnica em tanatopraxia Raquel de Andrade Souza, de 32 anos, que trabalha há mais de seis anos na preparação e maquiagem de pessoas falecidas.

Uma profissão marcada pelo zelo e sensibilidade

A tanatopraxia é um ofício que exige extremo zelo e atenção meticulosa aos detalhes do corpo de pessoas falecidas. No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), é fundamental prestar homenagem às mulheres que atuam com tamanha sensibilidade e cuidado em profissões pouco visíveis socialmente, mas absolutamente fundamentais nos momentos mais delicados da vida humana.

Entre as competências exercidas por Raquel se destaca especialmente a necromaquiagem, serviço especializado que ocorre após a completa higienização, drenagem dos líquidos corporais e desinfecção do corpo. "Consideramos a maquiagem um procedimento estético que é feito após a higienização do corpo. Busco devolver uma aparência mais natural, tranquila e serena, ajudando a família a reconhecer a pessoa com uma expressão mais próxima de como ela era em vida", explica a profissional com convicção.

Da curiosidade à realização profissional

Raquel contou que entrou na profissão de forma bastante despretensiosa, inicialmente motivada pelo desemprego e pela necessidade urgente de sustentar sua família. "Quando eu entrei, foi na limpeza da funerária. Como a curiosidade sempre falou mais alto dentro de mim, eu vi os meninos fazerem aquele procedimento com os corpos, e me deu curiosidade para querer mexer, querer fazer", relembra.

O caminho profissional se desenhou naturalmente: "Daí, surgiu a oportunidade de fazer o curso, me especializei, apareceu a oportunidade, eu agarrei e estou até hoje. E acabou que foi onde eu me encontrei", complementa com satisfação evidente em sua voz.

Necromaquiagem: muito além da técnica

A necromaquiagem faz parte das ciências mortuárias, que englobam diversas especialidades ligadas à morte. Entre elas, destacam-se também:

  • Necropsia - investigação minuciosa para determinar a causa precisa da morte
  • Reconstrução facial - correção cuidadosa de deformações resultantes de acidentes ou doenças

Raquel enfatiza que há um cuidado especialmente meticuloso com os detalhes porque, após a morte, o corpo costuma sofrer alterações significativas como:

  1. Palidez acentuada da pele
  2. Aparecimento de manchas variadas
  3. Escurecimento progressivo da epiderme

O objetivo primordial da necromaquiagem, segundo sua experiência, é suavizar estes sinais naturais do óbito. "Muitas famílias relatam que, após o velório, viram o ente querido com uma aparência calma e natural e isso ajuda muito no processo de luto e aceitação da perda. É gratificante saber que faço parte desse processo e por isso eu amo a minha profissão", compartilha emocionada.

Desafios de uma profissão invisível

Raquel é mãe solo de uma menina de 11 anos e principal provedora de seu lar. No local onde é contratada, ela trabalha em regime intensivo de 12/36 horas com uma equipe de oito agentes funerários. Além da formação técnica específica, ela também recebeu capacitação dentro da própria funerária e precisou buscar especializações adicionais em:

  • Biossegurança avançada
  • Técnicas estéticas especializadas
  • Desenvolvimento da inteligência emocional

Para mulheres como ela, os desafios são ainda mais complexos: além da pesada responsabilidade pelas tarefas domésticas e educação dos filhos, também enfrenta diariamente o estigma social de estar em uma 'profissão invisível' e frequentemente mal compreendida. "Acham que somos frios, que não temos nenhum tipo de sentimento. Pelo contrário: eu aprendo e reflito todos os dias. Além do curso, muito do aprendizado também vem da prática e da experiência no dia a dia. Com o tempo, vamos desenvolvendo mais sensibilidade e técnica", defende-se com firmeza.

O significado profundo do trabalho

Raquel afirmou que, na maioria dos casos, são os próprios familiares que escolhem cuidadosamente a roupa, o penteado e o estilo específico da maquiagem, elementos fundamentais no processo pessoal de despedida. "Isso permite que o falecido seja apresentado de uma forma que respeite integralmente sua personalidade, história de vida e crenças pessoais, e eu me considero uma profissional que trabalha com muito respeito e sensibilidade porque a tanatopraxia vai muito além da mera técnica", reflete.

E complementa com profunda convicção: "Não é apenas preparar um corpo, mas cuidar da última imagem que a família terá de quem ama. Decidi me tornar tanatopraxista pois entendi que cuidar de quem partiu também é uma forma genuína de amar. Sempre fui uma pessoa sensível à dor do outro, e percebi que poderia transformar um momento de despedida em algo mais digno, mais sereno e mais humano. Ser tanato é um ato de respeito, cuidado e honra à história única de cada pessoa".

Mensagem no Dia da Mulher

Como mensagem especial no Dia Internacional da Mulher, Raquel aconselha que, diante do simbolismo poderoso da data, o essencial é nunca permitir que o medo seja maior que os sonhos, mesmo quando a profissão escolhida não esteja entre as mais prestigiadas socialmente.

"Toda mulher tem uma força enorme dentro de si, mesmo quando ainda não percebe isso completamente. Acredite no seu potencial único, siga em frente com coragem inabalável e não permita que a opinião ou o julgamento alheio apaguem aquilo que você verdadeiramente sonha para a sua vida", orienta com sabedoria.

E finaliza com palavras inspiradoras: "Quando uma mulher decide acreditar em si mesma de forma genuína, ela não muda apenas a própria história pessoal - ela inspira profundamente outras mulheres a também terem coragem de lutar persistentemente pelos seus sonhos mais preciosos".