O fenômeno dos 'kidults' transforma a indústria de brinquedos
A cena icônica do filme Quero Ser Grande, em que Tom Hanks dança no teclado gigante de uma loja de brinquedos, simboliza perfeitamente o desejo contemporâneo de muitos adultos: manter viva a criança interior. Esse anseio não é apenas metafórico; está impulsionando um mercado bilionário globalmente.
Nostalgia e realização de sonhos infantis
Os chamados kidults — adultos que adquirem brinquedos para uso próprio — estão revolucionando a indústria. Movidos por nostalgia e pelo desejo de concretizar fantasias da infância, esse grupo está expandindo rapidamente. No ano passado, o setor global de brinquedos registrou crescimento de 7%, impulsionado principalmente por essas compras.
Synésio Costa, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), explica: "Muitos adultos buscam realizar desejos de infância que não foram atendidos, presenteando a si mesmos com itens antes inacessíveis." Isso reflete uma mudança comportamental significativa, onde o lúdico ganha espaço na vida adulta.
Dados impressionantes do mercado
As estatísticas confirmam a tendência. Há uma década, apenas 9% dos gastos com brinquedos nos cinco maiores mercados europeus vinham de pessoas acima de 18 anos. No ano passado, essa participação mais que dobrou. Projeções indicam que o faturamento global desta fatia saltará de 38,7 bilhões de dólares em 2025 para aproximadamente 67,9 bilhões de dólares.
No Brasil, o crescimento é notável:
- Jogos de tabuleiro e cartas expandiram 16% no último ano.
- Blocos de construção, como os da Lego, tiveram aumento de 17%.
Itens como carrinhos Hot Wheels, bonecas Barbie, personagens de Star Wars e cartões de Pokémon estão entre os favoritos desses consumidores.
Fuga do digital e novos espaços de lazer
Além da nostalgia, o fenômeno é alimentado pelo desejo de escapar do mundo digital. Adultos saturados de internet, redes sociais e algoritmos buscam experiências analógicas. Espaços como o Bodogami, em São Paulo, oferecem jogos de estratégia combinados com refeições, atraindo especialmente jovens de 25 a 35 anos após o trabalho.
Rafael Kanaoka, fundador do Bodogami, comenta: "O público que mais nos procura é de jovens adultos, especialmente depois do horário de trabalho, para relaxar longe do smartphone ou do computador." Locais como o Bario Bar, com fliperamas clássicos, também prosperam, proporcionando uma pausa das telas.
Mudanças demográficas e culturais
Fatores demográficos contribuem para essa tendência. Em 2025, pela primeira vez na história do Brasil, o número de casais com filhos caiu para menos da metade, alterando padrões de consumo. Isso, combinado com uma cultura que valoriza o bem-estar e o autocuidado, cria um ambiente fértil para o mercado de brinquedos adultos.
Colecionadores como Lucas Santana, de 32 anos, que trabalha no mercado financeiro e acumula peças de Lego, exemplificam essa paixão. "É um jeito de sair da rotina, limpar a mente e ficar longe das telas", ele resume, destacando itens como a nave Millennium Falcon, lançada em 2017, que se tornou um símbolo desse movimento.
Conclusão: um mercado em expansão
O fenômeno dos kidults não é passageiro; representa uma transformação profunda na forma como os adultos encaram o lazer e a nostalgia. Com projeções de crescimento contínuo e inovações no setor, como brinquedos mais sofisticados e experiências imersivas, esse mercado promete continuar a revolucionar a indústria global, oferecendo um refúgio encantador do estresse da vida moderna.



