Crise aérea global: conflito no Oriente Médio paralisa voos e causa prejuízos bilionários
O setor de viagens enfrenta uma das suas maiores crises desde a pandemia de Covid-19, com o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã provocando um efeito dominó em escala mundial. Nesta segunda-feira (2), as ações de companhias aéreas, redes hoteleiras e agências de viagens despencaram, acumulando perdas impressionantes de US$ 22,6 bilhões (cerca de R$ 117,5 bilhões), conforme dados da agência Reuters.
Fechamento de hubs e cancelamentos em massa
A situação crítica levou ao fechamento de importantes hubs aéreos no Oriente Médio, com Dubai e Doha permanecendo fechados pelo terceiro dia consecutivo. Esses aeroportos, que figuram entre os mais movimentados do planeta, deixaram dezenas de milhares de passageiros retidos, criando um cenário de caos e incerteza. A Jordânia se tornou o mais recente país da região a fechar parcialmente seu espaço aéreo, ampliando ainda mais as restrições.
Dados da empresa de análise de aviação Cirium revelam que pelo menos 4 mil voos foram cancelados em todo o mundo nos últimos três dias, com 1,5 mil apenas nesta segunda-feira. A circulação de aeronaves e tripulações foi severamente prejudicada, com profissionais e aviões espalhados em locais inadequados, situação descrita por especialistas como um verdadeiro "cenário de pesadelo" para as operações.
Impacto financeiro e pressão sobre as companhias aéreas
As bolsas de valores refletiram imediatamente a turbulência. As ações das companhias aéreas americanas, como American Airlines e United Airlines, recuaram mais de 6% na abertura dos mercados. Na Europa, a TUI, maior empresa de viagens do continente, registrou queda de 9,6%, enquanto a Lufthansa recuou 5,7% e a IAG, controladora da British Airways, perdeu 5,4%. A rede hoteleira Accor e a empresa de cruzeiros Carnival também tiveram quedas acentuadas.
Analistas financeiros destacam três principais pontos de pressão para as companhias aéreas:
- Aumento dos custos com combustível, impulsionado pela disparada nos preços do petróleo, que saltaram 13% e atingiram o nível mais alto desde janeiro de 2025.
- Cancelamentos em massa de voos, que interrompem a receita e exigem realocação de recursos.
- Despesas com redirecionamentos de rotas e realojamento de passageiros, que sobrecarregam as operações.
Reações das companhias aéreas e tentativas de normalização
Diversas companhias aéreas adotaram medidas emergenciais. A Cathay Pacific cancelou todos os voos para o Oriente Médio, incluindo destinos como Dubai e Riad, e isentou taxas de remarcação. A Singapore Airlines suspendeu voos de e para Dubai até 7 de março, enquanto a Japan Airlines interrompeu serviços entre Tóquio e Doha. A flydubai suspendeu todas as operações de e para Dubai até terça-feira.
Algumas tentativas de retomada foram observadas. A Etihad, de Abu Dhabi, retomou alguns voos, e o Aeroporto Ben Gurion, em Israel, informou que reabrirá de forma limitada. A autoridade de aviação civil dos Emirados Árabes Unidos anunciou a operação de "voos especiais" para auxiliar na saída de passageiros retidos na região.
Passageiros enfrentam caos e incerteza
Os efeitos em cadeia afetaram viajantes em todos os continentes. Passageiros relataram situações de desinformação e dificuldades para reorganizar viagens. "Não temos nenhuma informação, nenhuma resposta no telefone da Qatar Airways", disse uma passageira italiana que teve seu voo cancelado e precisou encontrar uma rota alternativa via Los Angeles, com custos adicionais significativos.
Em aeroportos como Melbourne, cenas de centenas de pessoas buscando informações vagas ilustraram o caos instalado. "Estava caótico em Melbourne, centenas de pessoas procurando até mesmo a mais vaga informação", relatou um passageiro à Reuters, destacando a dimensão humana da crise.
Exposição regional e perspectivas futuras
Analistas apontam que companhias aéreas com forte presença no Oriente Médio estão particularmente expostas. A Wizz Air, por exemplo, foi citada como a mais vulnerável na Europa devido às suas operações em Israel, com ações caindo 7%. As companhias aéreas indianas também enfrentam riscos elevados, dada a intensa frequência de voos para a região, que atende a uma grande população de trabalhadores migrantes.
O setor, que já enfrentava pressões antes do conflito devido à redução de viagens mais caras por parte de viajantes preocupados com custos, agora encara um desafio sem precedentes. A Norwegian Cruise Line Holdings já previu lucro abaixo do esperado para 2026, sinalizando que os impactos podem se estender por um longo período.
Enquanto os preços do petróleo permanecem voláteis e as tensões geopolíticas persistem, o setor aéreo global se prepara para uma recuperação lenta e complexa, com a segurança de passageiros e a estabilidade operacional no centro das preocupações.
