Comandante de navio africano morre após resgate no Porto de Fortaleza
O comandante do navio africano que ficou à deriva no Oceano Atlântico por quase dois meses e foi rebocado para o Porto de Fortaleza faleceu na última quinta-feira (9), na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Praia do Futuro. A informação foi confirmada pela Secretaria de Direitos Humanos do Ceará (Sedih). O homem, natural de Gana, tinha 68 anos e chegou à capital cearense com a saúde debilitada e confusão mental, após a longa jornada em alto-mar.
Tripulação recebe notícia da morte e permanece no navio
De acordo com Jamina Teles, porta-voz do Programa Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas da Sedih, a tripulação foi informada sobre o óbito por psicólogos ainda na quinta-feira. A secretaria tenta contatar a família do comandante para comunicar a morte e, a partir da decisão dos familiares, serão tomadas as providências para o translado do corpo.
Enquanto isso, nove tripulantes – oito ganeses e um albanês – continuam embarcados no navio atracado no Porto de Fortaleza. Eles recusaram a oferta de abrigo e de repatriação, optando por permanecer juntos aguardando o conserto da embarcação. Apenas um tripulante holandês, que possuía visto para circular no Brasil, retornou ao seu país de origem esta semana.
Problemas com visto e condições de saúde preocupam autoridades
Dos onze tripulantes originais, apenas os dois europeus tinham visto para circular no território brasileiro. Os nove ganenses não possuem documentação adequada e, por esse motivo, só podem transitar acompanhados por uma autoridade. A Polícia Federal relatou que os homens foram resgatados com condições mínimas de higiene, restrição de água potável, elevado nível de estresse psicológico e falta de comunicação com familiares.
A Secretaria de Direitos Humanos acompanhou o atendimento médico completo na UPA, onde foram identificados problemas como hipertensão, diabetes e outras patologias. Muitos estavam há mais de 40 dias sem medicação adequada. Após o atendimento, os tripulantes receberam cestas básicas para alimentação durante o feriado.
Resgate complexo e espera por reparos
O navio, de propriedade de uma empresa da Mauritânia, partiu do Senegal com destino à Guiné-Bissau para atualizações documentais. A viagem, que deveria durar 48 horas, tornou-se um pesadelo de 61 dias após uma pane hidráulica que deixou a embarcação à deriva. A tripulação enfrentou dificuldades técnicas de comunicação, utilizando apenas rádio VHF para contato com navios próximos.
Após contato com um navio holandês, a Marinha do Brasil foi acionada e realizou um complexo resgate envolvendo três embarcações: o Navio-Patrulha Oceânico Araguari, a Corveta Caboclo e o Rebocador de Alto-Mar Triunfo. A operação garantiu a segurança da navegação e preveniu poluição hídrica, conforme destacou o Vice-Almirante Jorge José de Moraes Rulff, Comandante do 3º Distrito Naval.
A expectativa é que técnicos da empresa cheguem ao Brasil ainda nesta sexta-feira (10) para realizar os reparos necessários. A tripulação manifestou desejo de consertar o navio e seguir viagem rumo à Guiné-Bissau, recusando todas as ofertas de repatriação. Enquanto aguardam, permanecem unidos no navio, enfrentando as incertezas de sua situação migratória e as sequelas de dois meses de provação no oceano.



