O Brasil, rico em biodiversidade e grande produtor de alimentos, minerais e petróleo, convive com alta desigualdade social. Como conciliar conservação e desenvolvimento? Quem define e garante os limites? O INCT Redem, com apoio do CNPq, realizou pesquisa qualitativa com 12 grupos focais, ouvindo em profundidade 102 brasileiros dos seis biomas, incluindo moradores de áreas de mineração, garimpo, agropecuária e energia. Os resultados foram cruzados com a Pesquisa de Valores Ambientais e Atitudes sobre a Amazônia (PVAAA, 2024), de caráter quantitativo, com survey nacional com 1.789 entrevistados, realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Unanimidade no orgulho, mas medo de perder emprego
Os resultados mostram unanimidade: a natureza gera orgulho e apego. Mas, quando o tema é desenvolvimento, cresce o medo de perder emprego e renda, sobretudo entre os menos escolarizados e mais dependentes de recursos naturais. O licenciamento ambiental, tido como entrave, incomoda. No Cerrado rural, a defesa econômica é direta: “A exportação movimenta o País.” Mas nem tudo deve ser sacrificado. Pela PVAAA, apenas 25% concordam que emprego e renda devem ser prioridade na Amazônia mesmo com danos ambientais, enquanto 61% discordam e os demais ficam neutros. Há desejo de responsabilidade ambiental.
Expansão imobiliária e degradação dos vulneráveis
Na Mata Atlântica do Nordeste, mencionam expansão imobiliária sem controle: “Maragogi, Barra de São Miguel, resorts com prédios de oito andares. Sem lei.” Há consenso de que a degradação recai sobre os mais vulneráveis: “A mineração fez a terra ceder em Maceió e bairros viraram fantasmas. Vidas inteiras mexidas.”
Limites do crescimento e papel do Estado
A conclusão é de que o crescimento tem limites além dos quais os danos superam os ganhos. Avaliam que esse freio não virá do setor privado, para quem conservar “não traz lucros tão atrativos”. Por isso, veem a intervenção política como única forma de conter excessos. O Estado, apoiado por participação social, é visto como o agente central para conciliar desenvolvimento e proteção ambiental, com preferência por políticas baseadas em incentivos mais do que em punições.
Confiança limitada nos órgãos ambientais
A confiança nos órgãos ambientais é limitada. No caso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), 54% confiam, 29% desconfiam, 16% são neutros e 1% não sabem ou não responderam, de acordo com a pesquisa PVAAA. Nos grupos focais, destaca-se o reconhecimento da importância da fiscalização e do esforço dos agentes, mas também a falta de pessoal e recursos. “Em Sobral só tem uma viatura do Ibama.” As críticas aos órgãos ambientais ainda miram burocracia e corrupção: obras liberadas após embargo, multas que somem, lei aplicada seletivamente. Relatam agentes sob coação e assédio de subornos.
Soluções apontadas: mais recursos e participação social
Concordam que os órgãos ambientais sofrem dos males do Estado: ineficiência, sucateamento, corrupção e impunidade. A solução apontada é a aplicação de “mais recursos de pessoal, tecnologia e participação social para fazer uma fiscalização mais rígida e transparente”. Assim, almejam um Estado capaz de arbitrar os limites do desenvolvimento, mas percebem instituições frágeis, com poucos recursos e sujeitas a pressões políticas e econômicas. Para que o Estado exerça seu papel, sugerem mais capacidades básicas de fiscalização, transparência e participação social.



