Por que adultos insistem em controlar a troca de figurinhas da Copa?
Por que adultos insistem em controlar troca de figurinhas?

Em tempos de tanta tela e pouca conversa, o álbum da Copa virou uma oportunidade rara de encontro, negociação e frustração. Mas por que tanto medo das famílias?

Eu jurei que não escreveria este texto. Também achei que não voltaria a ler histórias como a da mãe que comprou 2 mil pacotinhos de figurinhas para o filho e os sobrinhos completarem o álbum e, depois, organizou a venda das repetidas. Mas o caso não parece tão isolado assim. Basta passar alguns minutos pelas redes sociais para encontrar adultos anunciando as figurinhas dos filhos, administrando preços, separando lotes e transformando em comércio aquilo que, durante décadas, foi parte da brincadeira.

E me desculpem, mas há dois problemas nisso: vender as figurinhas repetidas e fazer toda a operação pela criança. Humanidade, me diga, quando foi que vocês acharam que vender figurinhas era recurso para completar álbum?

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Antes que alguém diga que o álbum está caro, que um pacotinho custa muito e que completar a coleção pode consumir uma pequena fortuna, vale esclarecer: o argumento é legítimo, mas não explica tudo. O que está em jogo aqui não é apenas o preço da figurinha, mas a maneira como os adultos têm se apropriado das experiências dos filhos, antecipando seus desejos, resolvendo suas dificuldades e eliminando qualquer caminho que envolva espera, negociação ou frustração.

Trocar figurinha é brincar, mas é também um exercício sofisticado de convivência

A criança precisa se aproximar, perguntar, escutar uma recusa, avaliar uma proposta, sustentar o desejo, decidir se aceita e lidar com o resultado. Pode conversar com alguém de outra sala, rever uma estratégia, descobrir que uma figurinha tem valores diferentes para pessoas diferentes e perceber que nem toda negociação termina como imaginava. É a vida social acontecendo sem aplicativo, sem algoritmo e, de preferência, sem um adulto administrando cada movimento. E que cena linda que é ver crianças e adolescentes no pátio da escola exercitando as relações sociais, não acha?

A troca de figurinhas é um exercício antigo e concreto de experiência social mais potente que uma aula de habilidades socioemocionais.

Só que num tempo em que a gente fala tanto sobre a dificuldade de crianças e adolescentes se relacionarem fora das telas, é curioso que, quando aparece uma brincadeira capaz de reuni-los ao redor de uma mesa ou de uma mochila aberta no recreio, a primeira reação adulta seja controlar, proibir ou transformar aquela experiência em mais um problema a ser resolvido.

A gente reclama que eles não conversam, não sabem negociar, não olham nos olhos, não toleram frustrações e só querem saber do celular. Mas, quando surge uma prática concreta, antiga, imperfeita e profundamente social, muitos pais querem entrar no meio para garantir que o filho não perca, não erre, não se arrependa e jamais faça uma troca ruim. Que medo é esse de deixar os filhos se depararem com as consequências de uma escolha? A gente está estragando tudo, gente. E isso é sério demais.

O que uma troca ruim pode ensinar?

Seu filho trocou dez figurinhas por uma? Talvez tenha feito um péssimo negócio. Talvez tenha sido passado para trás. Ou talvez aquela única figurinha tivesse, para ele, muito mais valor do que as dez repetidas que estavam paradas na mochila. Pode ser também que tenha percebido, poucos minutos depois, que se precipitou. Em qualquer dessas hipóteses, há uma experiência importante acontecendo. O desconforto de uma troca ruim pode ensinar mais sobre negociação, valor e impulsividade do que muitos sermões sobre esperteza ou dinheiro.

O que não pode acontecer é o adulto transformar cada negociação infantil em litígio familiar, procurar a outra criança para exigir a devolução das figurinhas ou levar o caso ao grupo de WhatsApp dos pais como se o recreio precisasse de auditoria. Muito menos chamar o filho de burro, trouxa ou ingênuo porque ele fez uma escolha considerada desvantajosa. A infância precisa ter direito ao erro. A adolescência também.

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Brincar envolve risco simbólico

A criança pode perder, se arrepender, mudar de ideia e entender que deveria ter negociado de outra forma. É assim que ela começa a estabelecer limites, reconhecer o valor das próprias coisas e tomar decisões sem depender permanentemente da aprovação dos adultos. Essas habilidades não nascem de uma aula sobre competências socioemocionais. Elas se desenvolvem quando a criança vive situações reais, proporcionais à sua idade e tem a oportunidade de elaborar o que aconteceu.

Nesse sentido, algumas escolas têm compreendido muito bem o papel da troca de figurinhas - e palmas à elas. Ao organizar espaços ou momentos em que os alunos possam levar seus álbuns, estabelecer combinados e circular pelo pátio, reconhecem que o recreio também educa. Há aprendizados que não acontecem quando o adulto explica, mas quando a criança tenta, erra, revê uma decisão e encontra uma nova maneira de agir.

Claro que a escola deve estabelecer limites. As figurinhas não precisam invadir a sala de aula nem virar comércio, aposta, pressão ou instrumento de humilhação. Mas regra é diferente de proibição, assim como mediação é diferente de intervenção permanente. O problema começa quando qualquer possibilidade de conflito é usada como justificativa para retirar a experiência das crianças. E vou falar o que parece óbvio aqui: crianças e adolescentes precisam de experiências. A gente só aprende quando vive uma situação, em sentimento, uma emoção. A vida não é teórica.

O álbum de figurinhas é uma pequena escola de convivência

Há matemática na contagem das repetidas e na avaliação das trocas; linguagem na argumentação e na recusa; ética na decisão de ser justo ou de tentar levar vantagem; autocontrole na capacidade de esperar; e pertencimento na possibilidade de participar de uma cultura compartilhada. Há também comparação, disputa, euforia, frustração e inveja. Ou seja, há vida. E vida não se aprende sendo protegido permanentemente dela.

Talvez seja por isso que o caso dos 2 mil pacotinhos provoque tanto incômodo. Ele revela uma dificuldade contemporânea dos adultos que é suportar o processo. A gente quer que a criança complete o álbum, mas temos pouca paciência para que ela percorra o caminho até lá. Só que parte da graça está justamente no que falta. Está na figurinha procurada durante semanas, na surpresa de encontrá-la dentro de um pacote e na negociação que finalmente deu certo. Um álbum entregue praticamente pronto pode até ser completo, mas carrega poucas histórias.

E quando os adultos vendem as repetidas em vez de estimular a troca, acontece ainda outro deslocamento: a experiência de convivência é substituída por uma operação financeira. Não se trata de ignorar que o álbum pesa no orçamento de muitas famílias. Mas, quando tudo vira oportunidade de monetização, perde-se a dimensão da repetida como possibilidade de vínculo. E num mundo que tem ensinado crianças e adolescentes a valorizarem status e dinheiro esse tipo de valor é tão perigoso.

Sem falar que a troca de figurinhas nos lembra que a convivência não é eficiente nem completamente organizada. Pergunto de novo: por que estamos com tanto medo de deixar crianças e adolescentes viverem suas experiências?

Por que estamos com tanto medo?

Talvez porque nós, adultos, também estejamos desaprendendo a conviver. Queremos resolver tudo rapidamente, proteger os filhos de qualquer desconforto e garantir que jamais sejam passados para trás ou se sintam bobos. No entanto, há um preço quando toda dor mínima vira ocorrência e toda frustração exige uma intervenção. A criança passa a acreditar que não dá conta. O adolescente aprende a esperar que alguém sempre entre em campo para resolver por ele.

Adultos precisam observar, orientar e intervir quando houver humilhação, coerção, roubo, violência ou uma relação evidente de abuso. Mas estar por perto não significa ocupar o centro da experiência. Educar também exige saber quando não atravessar o caminho do filho.

Diante de uma troca ruim, talvez seja mais interessante perguntar o que ele percebeu e o que faria diferente da próxima vez. Essa conversa é muito mais formativa do que procurar culpados ou tentar desfazer imediatamente a escolha. Autonomia não se constrói apenas quando a criança acerta, mas principalmente quando ela pode pensar sobre o próprio erro sem ser humilhada ou substituída por um adulto.

A memória que fica

A Copa passa. O álbum acaba guardado em alguma gaveta, algumas figurinhas descolam e, depois de alguns anos, ninguém se lembra exatamente de quantas páginas conseguiu completar. Mas a memória da figurinha difícil que foi conquistada numa negociação, do colega que foi generoso, do recreio cheio de crianças reunidas ao redor de um álbum ou do som das mãos batendo bafo no chão não se perdem nas gavetas. E em tempos de tanta preocupação com a falta de conexão humana, isso é imenso.

Antes de proibir, comprar demais, vender demais ou tentar administrar cada troca, talvez os adultos precisem respirar e sair um pouco do caminho. Crianças e adolescentes precisam ter a oportunidade de negociar, perder, se arrepender, rever escolhas e aprender. A gente precisa deixar que eles vivam. Coragem, queridas famílias.