Os títulos colombianos subiram depois que Abelardo De la Espriella venceu uma das eleições presidenciais mais acirradas da história do país, preparando o terreno para uma guinada em direção a políticas favoráveis ao mercado, que têm impulsionado altas em toda a América Latina.
Desempenho dos títulos e expectativas do mercado
Os títulos de dólar do país, que já vinham se valorizando com as apostas dos investidores na queda do governo de esquerda, subiram em toda a curva no início do pregão de segunda-feira. Os títulos com vencimento em 2054 lideraram a alta, subindo 0,8 centavo, para 116,9 centavos de dólar, segundo dados indicativos de preços coletados pela Bloomberg.
De la Espriella venceu a contagem preliminar com uma vantagem de aproximadamente 1 ponto percentual sobre seu oponente de esquerda, o senador Ivan Cepeda. O presidente Gustavo Petro afirmou que a diferença é muito pequena para declarar um vencedor, dizendo que os tribunais do país devem decidir sobre os resultados após analisarem os registros oficiais das seções eleitorais — um processo que pode levar alguns dias.
Desafios de governabilidade
“Uma vitória por um ponto percentual ainda é uma vitória, mas uma margem tão apertada remodela tanto o mandato quanto a política de implementação em todas as frentes”, escreveu o economista Diego Pereira, do JPMorgan Chase & Co., em uma nota na segunda-feira. “Consideramos a governabilidade, e não a direção das políticas, a principal fonte de incerteza daqui para frente.”
Os investidores veem a guinada à direita como um possível momento decisivo para a Colômbia, que tem sofrido com altos déficits, uma pesada dívida pública e investimentos estrangeiros limitados devido às políticas de Petro. De la Espriella prometeu reverter muitas dessas medidas, prometendo cortar impostos e gastos públicos, além de intensificar o combate ao crime e abrir a indústria petrolífera para novas explorações.
Projeções de valorização e riscos
A Credicorp estima que o mercado de ações poderá subir 5% nos primeiros dias após a votação, com potencial de alta de até 20% a longo prazo. Os rendimentos da dívida local deverão cair entre 150 e 200 pontos base nos próximos meses, enquanto a moeda deverá se valorizar.
Mas a alta ainda pode ser de curta duração. Analistas alertaram que a margem apertada levanta dúvidas sobre possíveis protestos e a governabilidade do novo governo, limitando o potencial de valorização dos ativos colombianos. “Existe um risco significativo de confronto, dada a pequena margem da eleição”, disse Andrés Pardo, chefe de estratégia para a América Latina da XP Investments. “Dito isso, a tentativa de Petro de lançar dúvidas sobre os resultados tem mais probabilidade de aproximá-lo de problemas legais do que de sabotar com sucesso a transição democrática.”
Contexto regional
A ascensão de governos de direita ajudou a impulsionar a valorização dos mercados em toda a América Latina. Os ativos argentinos dispararam com os esforços do presidente Javier Milei para reformular a economia. Os títulos bolivianos subiram após a vitória de Rodrigo Paz nas eleições do ano passado, que prometeu atrair investidores estrangeiros para tirar o país da pior crise econômica em décadas.
As apostas de que a esquerda colombiana seria derrotada nas eleições começaram a impulsionar os ganhos nos ativos do país no início de 2025, ganhando força após o resultado surpreendente de De la Espriella no primeiro turno das eleições em maio.
Sustentabilidade fiscal e desafios futuros
O apoio dos mercados financeiros a De la Espriella dependerá fortemente de seu empenho em colocar as contas fiscais da Colômbia de volta em uma trajetória sustentável. O país enfrenta o maior déficit fiscal desde o início da pandemia. O governo previa uma redução do déficit em 2027, mas isso depende da aprovação de um projeto de lei tributária para arrecadar uma parcela significativa de receita adicional, o que será difícil de aprovar.
“O discurso em termos de questões fiscais, propostas e o gabinete serão muito importantes”, disse Daniel Velandia, economista-chefe da Credicorp Capital Colômbia. “Será um governo muito desafiador porque o país está completamente dividido em dois.”
Perfil de De la Espriella e reações internacionais
Advogado de defesa que se tornou político, De la Espriella, de 47 anos, com sua persona de showman e campanha de linha dura contra o crime, atraiu eleitores desiludidos com o sistema político vigente. Seu comportamento é um fenômeno relativamente novo na Colômbia, um país socialmente conservador em comparação com seus vizinhos.
Ele se junta a um grupo de populistas latino-americanos, como Nayib Bukele, de El Salvador, e Daniel Noboa, do Equador, que conquistaram o apoio do presidente dos EUA, Donald Trump.
O resultado “deve ser visto como uma notícia positiva pelos participantes do mercado”, disse Alejandro Arreaza, economista do Barclays. Mas o fato de as margens terem sido mais apertadas do que a maioria das pesquisas sugeria, acrescentou ele, “pode ser visto como um sinal de alerta quanto à governabilidade que a nova administração possa ter”.



