Na Faria Lima, há quem defenda que anos eleitorais favorecem uma distribuição mais generosa de dividendos pelas empresas. Para analistas consultados pelo E-Investidor, no entanto, essa correlação não se sustenta, e, em 2026, as campeãs de dividend yield devem ser companhias já consolidadas em setores associados à geração de renda passiva.
BB Seguridade lidera projeções
Um dos nomes de destaque é a BB Seguridade (BBSE3). Milton Rabelo, analista da VG Research, projeta um dividend yield de 10,3% para os próximos 12 meses, enquanto a Barsi Investimentos estima 12,5%. O consenso é que a seguradora continua sendo beneficiada pelo ambiente de juros elevados e pela resiliência operacional do negócio.
Na quarta-feira (24), a empresa informou que seu conselho de administração aprovou o pagamento de R$ 3,85 bilhões em dividendos intercalares referentes ao primeiro semestre de 2026. O valor dos dividendos por ação e as datas de pagamento serão divulgados pela companhia após a publicação dos resultados do segundo trimestre de 2026, prevista para 3 de agosto.
Setor elétrico é destaque
Além da BB Seguridade, empresas do setor de energia aparecem entre as favoritas para dividendos em 2026. A Barsi Investimentos calcula um dividend yield de 10% para Copel (CPLE6) e Cemig (CMIG3), devido à previsibilidade dos negócios regulados e à forte geração de caixa. A Taesa (TAEE11) aparece com estimativa de dividend yield de 9%, enquanto a CPFL Energia (CPFE3) pode entregar 8%.
Para Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, o setor reúne empresas protegidas do ruído político, pois as elétricas têm receitas previsíveis e tendem a apresentar maior estabilidade nos pagamentos, independentemente do resultado das eleições. “Transmissão de energia e seguros são os setores mais imunes à urna”, destaca.
Itaúsa é destaque no setor financeiro
Entre os bancos, Rabelo, da VG Research, cita a holding de investimentos Itaúsa (ITSA4) como um dos nomes promissores para 2026, com dividend yield projetado de 9% para os próximos 12 meses, impulsionado principalmente pelos resultados do Itaú (ITUB4). Já o Santander (SANB11) deve entregar um retorno em dividendos de 7% no mesmo período, de acordo com a Barsi Investimentos, enquanto o Banco do Brasil (BBAS3) enfrenta um cenário mais desafiador, com um dividend yield projetado de apenas 5%.
O BB é um exemplo de que o ciclo eleitoral não tem peso primordial sobre a distribuição de dividendos das companhias. Mesmo sendo uma empresa estatal, enfrenta pressões por conta da inadimplência do agronegócio e deverá manter sua política de remuneração aos acionistas mais conservadora, limitada a um payout de 30%, via juros sobre capital próprio (JCP) ou dividendos.
Em janeiro de 2026, o Banco do Brasil divulgou o seu calendário anual de pagamento aos acionistas. A empresa remunerará os acionistas em oito fluxos, sendo quatro pagamentos realizados ao longo dos trimestres de referência, de forma antecipada, e outros quatro pagamentos complementares, efetuados após o encerramento de cada trimestre.
Petrobras e Vale são candidatas a bons dividendos
Em 2022, ano da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Petrobras (PETR3;PETR4) registrou um dividend yield elevado, de 58,84%. Os especialistas da Barsi Investimentos acreditam que o pagamento da petroleira foi consequência de fatores operacionais, além dos políticos. “Parte disso é petróleo Brent elevado e o lucro recorde da estatal no pós-pandemia, mas também há um componente atrelado ao timing político. O governo Bolsonaro acelerou distribuições às vésperas da transição, antecipando uma possível mudança na política de remuneração da estatal”, apontam Samuel Silva, Lucas Amancio e Leandro Matias, especialistas da Barsi Investimentos.
Eles fazem a ressalva, porém, de que esse efeito observado na Petrobras não deve ser encarado como uma regra. “O preço das commodities e o nível da Selic explicam as distribuições de provento tanto quanto a cor do governo e, em vários anos, pesam mais”, completam.
Rabelo, da VG Research, concorda. Embora anos eleitorais sejam fiscalmente expansivos, o que, em tese, poderia levar o governo federal a demandar mais proventos das companhias por ele administradas, existem outros fatores que interferem no payout a ser adotado por essas empresas. O analista espera que a Petrobras distribua um volume menor de proventos em 2026, em comparação a anos anteriores, por conta do novo plano de negócios da companhia. Ainda assim, a petroleira segue entre as favoritas para quem deseja receber dividendos. Rabelo projeta dividend yield de 9% para os próximos 12 meses, por conta do preço do petróleo Brent e do desconto das ações. Já a Barsi Investimentos espera retorno de 7,3%.
Outro peso-pesado do Ibovespa, a Vale (VALE3), também figura entre as principais apostas para a distribuição de dividendos em 2026. A Barsi Investimentos projeta um dividend yield de 6% para a mineradora.
Eleições interferem na distribuição de dividendos ou não? O veredito
Para os analistas consultados pelo E-Investidor, as eleições não são um fator preponderante para a distribuição de dividendos. Segundo Oliveira, do Vida de Acionista, empresas de transmissão e distribuição de energia, bancos e companhias ligadas a commodities costumam liderar as distribuições todos os anos independentemente do cenário político. O motivo está nas características dos próprios negócios. “Existe um padrão forte de recorrência em proventos, mas ele é setorial, não eleitoral”, afirma Bruno Oliveira.
O analista aponta uma “armadilha” que pode levar investidores a associar as eleições a um aumento na distribuição de proventos: o dividend yield. Como o indicador é calculado pela relação entre os dividendos pagos e o preço da ação, ele pode subir artificialmente em anos eleitorais. Isso ocorre porque o aumento das incertezas costuma pressionar as cotações dos papéis, fazendo com que o dividend yield se eleve mesmo sem uma mudança no valor distribuído pela empresa.
Rabelo, da VG Research, tem um raciocínio semelhante. Para o analista, embora governos possam ter interesse em aumentar a arrecadação por meio das participações acionárias nas estatais, a distribuição de dividendos continua dependendo da geração de resultados das companhias.



