A Copa do Mundo de 2026 já movimenta o mercado de trabalho brasileiro, mesmo sendo realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Dados da Catho, obtidos com exclusividade pelo g1, mostram que entre abril e junho de 2026 o número de vagas anunciadas em setores tradicionalmente beneficiados pelo torneio cresceu 26% na comparação com o mesmo período de 2025. Foram 40.217 vagas neste ano, ante 31.910 no ano passado.
Profissões com maior crescimento
As maiores altas entre os cargos ocorreram para atendente de restaurante (+120%, saltando de 1.634 para 3.609 vagas), auxiliar de loja (+38%, de 3.814 para 5.286), auxiliar de produção (+28%, de 5.215 para 6.692) e auxiliar de logística (+16%, de 7.128 para 8.300).
Entre as áreas de atuação, restaurantes registraram crescimento de 47% nas vagas (de 6.217 para 9.139), enquanto logística e suprimentos avançaram 16% (de 18.584 para 21.557). O setor administrativo comercial teve alta de 4% (de 63.575 para 66.352), o administrativo geral cresceu 17% (de 13.247 para 15.580) e o administrativo/operacional aumentou 8% (de 25.315 para 27.380).
Expectativas para contratações temporárias
Segundo a Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem), a Copa se soma a outras datas sazonais, como Dia das Mães e Dia dos Namorados, para impulsionar a contratação de trabalhadores. A entidade estima cerca de 600 mil contratos temporários entre abril e junho de 2026 e afirma que aproximadamente 20% dos profissionais acabam sendo efetivados.
Para Alexandre Leite Lopes, presidente da Asserttem, a competição costuma ampliar a demanda por mão de obra principalmente nos setores de comércio, indústria e serviços. "Quanto mais tempo a Seleção Brasileira permanecer na competição, maior tende a ser o prolongamento desses contratos", afirma.
Interesse dos trabalhadores também cresce
Uma pesquisa do InfoJobs mostra que 65,1% dos entrevistados pretendem buscar empregos temporários durante a Copa do Mundo, enquanto 64,8% acreditam que grandes eventos esportivos aumentam as chances de conseguir trabalho.
Para Hosana Azevedo, gerente de Recursos Humanos da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, a competição amplia a demanda por mão de obra em diversos segmentos. "Para muitos profissionais, esse pode ser um caminho para conquistar renda extra, adquirir experiência ou até abrir portas para futuras contratações efetivas", afirma. Ela destaca que muitas empresas utilizam esse período para identificar talentos e avaliar candidatos em situações reais de trabalho.
Bares e restaurantes esperam faturar mais
Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 80% dos empresários esperam aumentar o faturamento durante a Copa, enquanto 52% pretendem transmitir os jogos. Os segmentos mais impactados são bares, restaurantes, cervejarias, choperias, churrascarias e espetarias. A maior parte dos empresários estima crescimento de até 20% nas receitas.
Segundo José Eduardo Camargo, líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel, o desempenho da Seleção influencia diretamente o consumo. "Os jogos da Seleção são os principais picos de faturamento. Nesses dias, há aumento expressivo no fluxo de clientes e no gasto médio, o que transforma cada partida em uma oportunidade relevante de geração de receita para bares e restaurantes", explica.
Varejo também se beneficia
Thiago Carvalho, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), avalia que o varejo também deve ser beneficiado. Os segmentos com maior potencial de crescimento são lojas de eletrônicos, supermercados, lojas de vestuário e artigos esportivos, e comércio de artigos para festas. "Como o segundo semestre é o melhor período de vendas para o setor e, consequentemente, a época em que o varejo mais contrata e investe na abertura de lojas, os colaboradores que forem bem avaliados terão grandes chances de permanecer", afirma.
Direitos dos trabalhadores temporários
O contrato temporário, regido pela lei 6.019/1974, pode durar até 180 dias, consecutivos ou não, com possibilidade de prorrogação por mais 90 dias. Os trabalhadores têm direitos como remuneração igualitária, jornada de oito horas diárias, horas extras (limitadas a duas horas diárias), repouso semanal remunerado, adicional noturno, insalubridade e periculosidade quando aplicável, férias proporcionais, 13º salário proporcional, FGTS com alíquota de 8% e possibilidade de saque integral ao final do contrato, seguro contra acidente de trabalho, e indenização se dispensado fora do prazo sem justa causa.
A advogada trabalhista Márcia Cleide Ribeiro ressalta: "Ainda que o trabalhador esteja contratado de forma temporária, isso não significa que não exista a necessidade de observação dos direitos e garantias estabelecidos nas relações de trabalho, os quais a legislação brasileira protege."
No entanto, não há direito a aviso prévio nem multa de 40% sobre o FGTS. O seguro-desemprego pode ser solicitado se o trabalhador tiver atuado pelo menos seis meses nos últimos 12 meses antes da demissão sem justa causa.
O contrato deve ser formalizado por escrito, com detalhamento da função, período, remuneração e condições de trabalho, além do registro na Carteira de Trabalho. Caso o empregador não cumpra as regras, a relação pode ser reconhecida como permanente, garantindo todos os direitos de um trabalhador efetivo.



