Boom cripto pré-Trump gera bilhões à família e prejuízo a milhões
Boom cripto pré-Trump: bilhões para família, perdas para investidores

O boom das criptomoedas que antecedeu o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos levou milhares de investidores a apostar em projetos ligados ao chefe da Casa Branca. De acordo com uma investigação da agência Reuters, desde que Trump reassumiu o governo, mais de um milhão de investidores enfrentaram perdas significativas, enquanto a família do presidente embolsou cerca de US$ 2,3 bilhões em lucros com empreendimentos no mercado cripto.

Modelo de negócio bilionário

A apuração da Reuters baseou-se em registros de blockchain, documentos corporativos, divulgações das empresas envolvidas, declarações públicas da família Trump e entrevistas com executivos do setor. As estimativas foram revisadas por especialistas em contabilidade e criptomoedas. Quatro projetos cripto ligados à família seguiram uma estrutura semelhante: os Trump assumiram pouco ou nenhum risco financeiro inicial, promoveram os empreendimentos publicamente e lucraram com a entrada de investidores, enquanto os ativos perdiam valor.

O principal deles é a World Liberty Financial, que gerou aproximadamente US$ 1,4 bilhão para a família apenas com a venda de tokens de governança. A empresa foi apresentada ao mercado com a promessa de "construir e democratizar um novo sistema financeiro", mas seus tokens sofreram forte desvalorização. Além dela, os irmãos Trump divulgaram as empresas American Bitcoin e AI Financial Corp. (antiga ALT5 Sigma) como alternativas para investidores. Os papéis das duas companhias também perderam valor. O quarto empreendimento é a memecoin $TRUMP, que perdeu cerca de 97% de seu valor desde o pico em janeiro de 2025.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Investidores confiaram no nome Trump

A Reuters entrevistou quase 30 investidores. Apenas três disseram desconhecer o histórico empresarial de Trump, marcado por falências e negócios fracassados. A maioria afirmou acreditar que sua posição política e reputação garantiriam retornos. Somente cinco relataram ganhos, tendo comprado tokens da World Liberty nas primeiras rodadas e vendido parte quando uma fração foi liberada para negociação.

John Paul Rollert, professor da University of Chicago Booth School of Business, afirmou que investidores deveriam avaliar se a família Trump lucraria mesmo em caso de fracasso. "Você estaria chegando mais perto de algo que parece um golpe", disse. A World Liberty destacou em seus documentos que a família receberia a maior parte das receitas, e que os ativos não deveriam ser tratados como investimentos.

Apoio político impulsionou o setor

Os investimentos ocorreram em um período de forte valorização do mercado cripto, impulsionado pela expectativa de que um segundo mandato de Trump favoreceria o setor. Após assumir, Trump implementou medidas positivas para a indústria, como regulamentação de stablecoins e mudanças na atuação de órgãos reguladores. O enriquecimento da família gerou críticas. Oito especialistas em ética governamental classificaram a situação como um conflito de interesses sem precedentes, embora não viole a legislação.

A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, afirmou que "todas as ações do presidente Trump são tomadas no melhor interesse do povo americano" e que "nem o presidente nem sua família jamais se envolveram em conflitos de interesse".

Projetos cripto renderam bilhões aos Trump

Segundo a Reuters, a principal fonte de receita foi a World Liberty Financial. Lançada em outubro de 2024, a empresa vendeu tokens de governança por 1,5 centavo de dólar, oferecendo apenas direitos limitados de voto. Muitos investidores apostavam em ganhos quando os ativos chegassem às corretoras, mas a empresa restringiu as vendas e aprovou uma proposta que impede o desbloqueio total dos tokens até 2030. O movimento gerou insatisfação. O porta-voz David Wachsman afirmou que a empresa permanece "ativamente engajada" com sua comunidade.

Depois de atingir 46 centavos de dólar, o token recuou para cerca de 6 centavos no fim de abril, uma queda de 87%. A Reuters estima que a World Liberty transferiu mais de US$ 1,6 bilhão para a família Trump, enquanto as perdas dos investidores somavam US$ 674 milhões. A memecoin $TRUMP teve trajetória parecida: após pico de US$ 75,35, o preço desabou. O projeto gerou cerca de US$ 616 milhões para a família, enquanto os investidores perderam mais de US$ 700 milhões.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Outro caso envolve a AI Financial Corp., que captou US$ 750 milhões em oferta de ações e destinou US$ 717 milhões à compra de tokens da World Liberty. As ações caíram de mais de US$ 9 para US$ 0,75, eliminando cerca de US$ 675 milhões em valor para investidores. Mesmo assim, mais de US$ 500 milhões foram direcionados à família Trump. A empresa afirmou que continua detendo os tokens e é "firme defensora" da stablecoin ligada ao projeto.