Um ano após a queda de um balão em Praia Grande (Santa Catarina) que matou oito pessoas, o inquérito policial foi reaberto, mas ainda não há culpados. O desastre, ocorrido em 21 de junho de 2025, é considerado a maior tragédia do balonismo brasileiro. O balão com 21 pessoas a bordo decolou por volta das 7h e, logo no início do passeio, a estrutura pegou fogo e despencou. Quatro vítimas pularam de uma altura de cerca de 45 metros e morreram; outras quatro morreram carbonizadas dentro do cesto. Treze pessoas sobreviveram, incluindo o piloto, que pulou quando o balão estava próximo ao solo.
Investigação reaberta após troca de delegado
A primeira investigação foi concluída em outubro de 2025, após a polícia ouvir mais de 20 pessoas. O conjunto de provas, segundo a apuração, "não encontrou a existência de conduta humana dolosa ou culposa que tenha dado causa ao incêndio em voo". No entanto, o inquérito foi reaberto em novembro, um dia após a exoneração do delegado de Santa Rosa do Sul que conduzia o caso. O delegado André Coltro assumiu a delegacia e passou a comandar a nova fase da apuração.
O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que os procedimentos relacionados à queda do balão seguem em andamento e tramitam sob segredo de Justiça. "O caso é objeto de diferentes frentes de atuação e apuração. Na esfera criminal, o MPSC acompanha as investigações destinadas a esclarecer as circunstâncias do acidente e apurar eventuais responsabilidades", detalhou o MP em nota. Uma das diligências requisitadas pela Promotoria de Justiça ainda não foi concluída, razão pela qual as investigações permanecem em andamento. Também há análises na esfera cível e um procedimento no Ministério Público Federal (MPF).
Famílias cobram justiça e reparação
O advogado Rafael Medeiros, que representa a família de Leandro Luzzi, uma das vítimas, revelou que o inquérito aguarda a realização de uma reconstituição do acidente, a ser conduzida pela Polícia Científica e por peritos criminais, com participação de assistentes técnicos indicados pelas famílias. Ainda não há data para o procedimento. "Há um total descaso porque até agora ninguém foi punido, ninguém foi processado, não houve nenhuma reparação para as vítimas. As famílias estão, até hoje, sem reparação, sem as respostas que elas precisam", afirmou o advogado.
Treze pessoas sobreviveram, entre elas o engenheiro Victor Hugo Mondini Correa e a médica veterinária Laís Campos Paes. O casal conseguiu saltar da estrutura em chamas e caiu em uma área de vegetação que amorteceu o impacto. "A lama amorteceu a nossa queda. A gente conseguiu evitar mais lesões por causa dessa lama", disse Correa.
Vítimas da tragédia
As oito vítimas fatais foram: Leandro Luzzi (33 anos), patinador artístico; Leane Elizabeth Herrmann (70 anos); Leise Herrmann Parizotto, médica e servidora pública; Janaina Moreira Soares da Rocha (46 anos) e Everaldo da Rocha (53 anos), casal de Joinville; Fabio Luiz Izycki (42 anos) e Juliane Jacinta Sawicki (36 anos); e Andrei Gabriel de Melo, oftalmologista.
Novas regras da ANAC para balonismo comercial
O acidente motivou a atualização das normas para voos de balões tripulados no Brasil, que entraram em vigor em dezembro de 2025. Sete meses após a entrada em vigor da norma de transição, o país já contabiliza 88 operadores autorizados. Atualmente, 25 municípios brasileiros estão autorizados a realizar voos comerciais, sendo quatro em Santa Catarina, explica Fábio Fagundes, gerente de Operações da Aviação Geral da ANAC. "Começamos em dezembro do ano passado essa transição. Já estamos há sete meses. Nesse período, a gente já tem 159 balões que passaram por essas inspeções e, decerto, desses, 145 já estão vinculados a algum operador já cadastrado pela ANAC."
Com a nova regra, os balões utilizados em voos comerciais poderão ser certificados, ter autorização de voo experimental (Cave) válida ou ser cadastrados como equipamentos de aerodesporto. Modelos não certificados precisarão passar por avaliação técnica e poderão transportar até 15 pessoas. Todos os balões deverão contar com equipamentos de segurança, como altímetro, rádio, extintor e sistema de desinflagem rápida, além de seguro obrigatório (RETA). Empresas que oferecem voos precisam estar cadastradas na Anac, elaborar planos de voo com base em dados meteorológicos, manter o registro das manutenções e orientar os passageiros sobre segurança. A estimativa da agência é que toda a transição regulatória seja finalizada em 2028.
Praia Grande e o turismo de balonismo
Com 8,2 mil habitantes, Praia Grande é conhecida como a "Capital dos Cânions" de Santa Catarina e tem no balonismo a principal atividade econômica. São cerca de 600 voos por mês — mais de 7,5 mil por ano. A tragédia de junho de 2025 foi o primeiro acidente com fatalidades desde o início da prática na cidade, em 2017. O balão envolvido tinha capacidade para até 27 pessoas ou 2.870 quilos. Desde o início da atividade, foram realizados mais de 50 mil voos na região.
O secretário de Turismo de Praia Grande, Henrique Maciel, afirmou que a adaptação à nova regulamentação está sendo "tranquila". "Nós temos praticamente 22 empresas hoje e todas essas empresas passaram por esse processo de ajustes dentro da regulamentação. Mas foi muito tranquilo. As nossas empresas já vinham sempre trazendo isso tudo com muito cuidado", disse. Sobre a segunda etapa da regulamentação, prevista para o final de 2026 ou início de 2027, as empresas deverão apresentar laudos técnicos anuais.



