No dia 12 de junho, usuários da plataforma de inteligência artificial Claude descobriram que não podiam mais acessar os modelos Fable 5 e Mythos 5, os mais avançados da Anthropic. O governo americano ordenou o bloqueio para usuários fora dos EUA e para estrangeiros em seu território, citando razões de segurança nacional. A empresa, alegando incapacidade de fazer a segregação, cortou o acesso para todos.
Dependência geopolítica na era digital
O movimento oferece uma prévia de uma nova forma de dependência geopolítica. Historicamente, países disputaram influência controlando territórios, rotas comerciais e petróleo. Agora, o poder passa pelo domínio das tecnologias que definem economia, informação e inovação. Estados Unidos e China lideram esse jogo, enquanto o Brasil, que depende da tecnologia americana, fica sujeito a decisões de Washington.
Dois dias depois, na véspera da cúpula do G7 na França, o primeiro-ministro canadense Mark Carney citou o caso da Anthropic como exemplo dos riscos de concentrar o uso da IA em poucas empresas, defendendo a diversificação de fontes tecnológicas para reduzir a dependência.
Atritos entre Anthropic e governo Trump
Os atritos começaram em fevereiro, quando a Anthropic se recusou a autorizar o uso livre de sua IA pelos militares americanos, incluindo vigilância em massa e armas autônomas. Desde então, o governo tenta banir a empresa de contratos federais. Enquanto isso, a Anthropic superou a rival OpenAI em receita e avaliação de mercado.
Em abril, a empresa adiou o lançamento do Mythos 5, considerando-o "poderoso demais" por ser capaz de encontrar brechas em qualquer software, mas semanas depois mudou de ideia e o lançou junto com o Fable 5, uma versão "amarrada" para uso geral, apostando em travas e acessos restritos.
Posição da Anthropic e críticas
O CEO Dario Amodei defendeu auditorias obrigatórias para modelos avançados, mas questionou a determinação do governo, afirmando que a medida não seguiu um processo transparente baseado em critérios técnicos. Há hipocrisia na situação: se os modelos são tão perigosos, a Anthropic não deveria tê-los desenvolvido; do lado do governo, a restrição tenta evitar que estrangeiros copiem o poder, mas contrasta com o histórico de cibercrime e desrespeito a direitos fundamentais dos EUA.
Impacto para usuários e soberania digital
A inteligência artificial ocupa espaço determinante na vida e nos negócios. Usuários que experimentaram o Fable 5 antes do bloqueio se maravilharam com suas capacidades e agora se sentem desamparados. O episódio mostra que o poder político controla o poder tecnológico. Para clientes, a mensagem é diversificar fontes, possivelmente recorrendo a modelos de arquitetura aberta em servidores locais como garantia de soberania digital.
É irônico que os modelos barrados se chamem Fábula e Mito, combinando com a opacidade da IA e das decisões governamentais. Espera-se mais transparência, especialmente de empresas que buscam IA super-humana. O caso oferece uma chance de reavaliar o impacto dessa tecnologia.



