Um português de 18 anos, investigado por instigar ataques em escolas no Brasil — entre eles o atentado à Escola Estadual Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, que matou a estudante Giovanna Bezerra Silva, de 17 anos — foi condenado a seis anos de prisão pela Justiça de Portugal nesta quarta-feira (1º). A sentença foi proferida pelo Tribunal de Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro.
Absolvido da maioria das acusações
Apesar da condenação, o tribunal absolveu o réu da maior parte das 230 acusações feitas pelo Ministério Público, incluindo as relacionadas diretamente ao ataque em Sapopemba. Segundo a Agência France Press (AFP), o jovem — que na época das denúncias era adolescente — foi considerado culpado por cumplicidade moral em uma tentativa de assassinato cometida por um estudante brasileiro contra colegas que praticavam bullying, posse de pornografia infantil e por incitar adolescentes a cometerem atos de violência contra animais.
O juiz Pedro Botelho Vieira, citado pela imprensa local, afirmou: "Toda a narrativa em torno desta situação, segundo a qual o acusado era um monstro capaz das piores ações e o principal responsável por esses atos, foi claramente exagerada, e não ficou comprovado que ele cometeu a grande maioria dos crimes de que foi acusado."
Críticas à acusação
O julgamento ocorreu a portas fechadas. De acordo com o site português Observador, o juiz fez duras críticas ao Ministério Público, afirmando que bastaria ter lido o processo do Brasil, remetido a Portugal, para concluir que a intervenção do jovem "foi praticamente nula". "Resulta do processo do Brasil que há mais de 30 dias o menor [brasileiro] estava a planear este ataque. Não há qualquer troca de mensagens entre o arguido e o menor", disse o juiz.
O MP acusava o português de ser o responsável por um grupo na plataforma Discord, onde incitava adolescentes a praticar atos violentos contra si mesmos, outras pessoas e animais de estimação, com transmissão ao vivo. Entre os atos estaria a instigação de quatro massacres em escolas no Brasil; três deles foram impedidos pelas autoridades antes de ocorrerem, e os potenciais autores tinham 12, 13 e 14 anos.
O ataque à Escola Sapopemba
Giovanna Bezerra Silva, de 17 anos, estava no terceiro ano do ensino médio e morava no Jardim Sapopemba, perto da escola. No dia 23 de outubro de 2023, ela foi baleada na cabeça por um colega de 15 anos, que entrou armado na instituição e efetuou os disparos. Além de Giovanna, outras duas estudantes de 15 anos foram atingidas. A vítima foi levada ao pronto-socorro do Hospital Sapopemba, mas não resistiu.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública, o adolescente autor dos disparos foi apreendido com a arma e encaminhado à Vara da Infância e Juventude.
Homenagens e memória
Nas redes sociais, Giovanna costumava mostrar sua paixão pelo vôlei e publicava fotos com amigos na escola. Sua última postagem, em 22 de outubro, mostrava um passeio no Parque Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo. Após a tragédia, amigos e familiares prestaram homenagens. Uma amiga escreveu no Instagram: "Meus melhores momentos sempre foram ao seu lado. Nunca pensei que estaria escrevendo um texto de despedida, um último adeus, mas Deus sabe de todas as coisas."
Em entrevista ao Fantástico, a mãe de Giovanna, Mariza Bezerra, contou que um dia antes do ataque a filha havia ido ao teatro. "Ela gostou tanto da peça, que falava sobre saudade, afeto." Na manhã seguinte, Mariza recebeu a confirmação da morte no hospital. "Eu não pensei que era com a Giovanna, porque, para mim, ela estava protegida na escola. Eu defino ela como meu amor, a minha vida. Ali estava indo uma parte da minha vida", disse. O pai, Denis Bezerra, completou: "Era como se tivesse arrancado a metade, a maior metade de mim."



