O Brasil perdeu, nesta terça-feira (7), Benedito Ruy Barbosa, autor de mais de 30 novelas que marcaram a televisão brasileira. Nascido em Gália, interior de São Paulo, ele construiu uma obra que retratou a grandiosidade do campo, seus conflitos e transformações, com a beleza e a magia da terra e a força de quem nela trabalha. Aos 95 anos, ele morreu em São Paulo, deixando um legado de histórias épicas e personagens inesquecíveis.
Infância no campo e inspiração para as novelas
A vida de Benedito Ruy Barbosa foi profundamente marcada pela infância no interior paulista. Em entrevistas, ele contou como o trabalho no campo e o convívio com imigrantes italianos influenciaram sua escrita: “Eu fiz todo o trabalho que um homem faz no campo. Tirei leite de vaca, eu aprendi a tirar também. E mais do que isso. Mais tarde, me serviu muito o que eu aprendi com os colonos italianos, da colônia que meu tio tinha. E quando eu escrevo, eu já escrevo o ‘italianês’ que eu aprendi”. Essa vivência rendeu diálogos autênticos e personagens que falavam a língua do povo.
Obra marcada por sagas épicas e heróis do cotidiano
Benedito Ruy Barbosa ficou conhecido por suas sagas épicas, como “O Rei do Gado”, que abordou a luta pela terra e a figura dos coronéis. Outro marco foi “Renascer”, com o personagem Zé Inocêncio. O autor se emocionava ao escrever, como lembrou ao descrever uma cena clássica: “Era o coronelzinho que fazia o papel no começo. E ele vê o jequitibá, ele pega o facão e enfia na terra, até o cabo, e fala: ‘Enquanto esse meu facão estiver encravado aqui, nem eu, nem você haveremos de morrer. Nem de morte matada, nem de morte morrida’”. Sua capacidade de criar heróis do cotidiano conquistou o público.
Primeiros passos na TV e a parceria com Vianinha
A carreira de Benedito começou como jornalista, profissão do avô e do pai. Trabalhou como revisor, cronista esportivo e escreveu a primeira biografia de Pelé. O dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, foi quem o incentivou a mostrar seus textos. Benedito entregou o romance “Fogo Frio”, inspirado na geada que queimou cafezais em Marialva. A peça ganhou prêmio e abriu as portas para a TV. Sua primeira novela foi “Somos Todos Irmãos”, em 1966, na TV Tupi.
Sucessos na Globo e a censura na ditadura
Em 1971, escreveu “Meu Pedacinho de Chão” para a Globo em parceria com a TV Cultura. Durante a ditadura militar, enfrentou a censura: “Uma vez eu escrevi uma cena em que o personagem Giramundo, ele começava a ensinar os caboclos a cantar o hino nacional. A censura cortou as cenas porque dizia que o hino nacional não podia ser cantado em um ambiente daquele. E eu briguei com a censura. Eu briguei com a censura e consegui liberar as cenas”. A determinação em defender seu trabalho marcou sua trajetória.
Ritmo intenso de trabalho e mais de 30 novelas
Benedito escrevia com paixão e rapidez. “Eu cheguei a escrever cinco capítulos em um dia. Tanto amor eu tinha por aquilo. Estava tão dentro de mim a história, que derretia a máquina”, disse. Em 1979, lançou “Cabocla”. Também conquistou o público infantil com 220 capítulos do “Sítio do Picapau Amarelo”. Em 1990, foi para a TV Manchete e criou “Pantanal”, novela que se tornou um fenômeno. A história de Juma Marruá, a mulher onça, ganhou remake em 2022 na Globo, escrito por seu neto Bruno Luperi. Bruno também adaptou “Renascer” para abordar dramas contemporâneos.
Amor e emoção como pilares das novelas
Para Benedito, uma grande história de amor era essencial. Em “Terra Nostra”, o casal Matteo e Giuliana, imigrantes italianos, emocionou o país. “Você tem que pegar o público a laço no primeiro capítulo. Pintar que esse amor vai ser maravilhoso. Quem assistiu ‘Terra Nostra’ não se apaixonou por aquele amor nascendo naquelas condições, naquele navio. Sem uma grande história de amor, a novela não vai para frente”, afirmou.
Legado eterno
Benedito Ruy Barbosa nos guiou pelos caminhos da emoção, ensinando a beleza dos ciclos da vida e da natureza. Inspirou-se no pai para criar o Velho do Rio, figura mística que dribla a morte em “Pantanal”. Uma pista de que pessoas e histórias inesquecíveis são capazes de ganhar a eternidade. O ator Antonio Fagundes definiu o amigo: “Você encantou a vida de muita gente. Você não tinha o pó de pirlimpimpim, mas fez muita gente voar nas suas histórias”.



