Eleições 2026: cargos em disputa e desafios geopolíticos do Brasil
Eleições 2026: cargos em disputa e desafios geopolíticos

Em 2026, os eleitores brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Em meio ao ruído das pesquisas e escândalos, o país enfrenta um momento crítico para decisões estratégicas. A rivalidade entre Estados Unidos e China, o aumento dos conflitos armados e a aceleração das transições energética e digital estão redefinindo o equilíbrio de poder global. O Brasil possui vulnerabilidades sérias, mas também trunfos que ainda não sabe usar plenamente. Qualquer partido ou candidato à presidência deveria apresentar propostas sobre esses temas ou, no mínimo, montar uma equipe competente para lidar com eles.

Defesa: gastos mundiais em alta e modernização das Forças Armadas

Em 2025, as despesas mundiais com equipamento militar cresceram pelo 11º ano consecutivo, atingindo o maior nível desde 2009. O Brasil começou a se mover na mesma direção: o Congresso autorizou até R$ 5 bilhões anuais em investimentos militares fora do arcabouço fiscal. As Forças Armadas trabalham em planos de modernização que buscam lições de conflitos recentes, como a resistência da Ucrânia e do Irã a potências maiores. A orientação do comando do Exército é identificar capacidades em que o Brasil tem vantagens estruturais e desenvolvê-las com grande intensidade, de forma autônoma. Focar em algumas capacidades é melhor do que tentar fazer tudo como uma versão em miniatura das grandes potências. A construção de uma base industrial de defesa já aumentou as exportações. Os programas de governo precisam mostrar contribuições para esse debate.

Agroindústria e dependência de fertilizantes

A agroindústria ilustra a interseção entre economia e geopolítica. A enorme extensão territorial do Brasil cria um mercado único para veículos autônomos – tecnologia de uso dual, civil e militar, desenvolvida com sucesso por empresas brasileiras e foco das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, o país é uma potência agrícola que depende de insumos estrangeiros: em 2025, importou 88% dos fertilizantes utilizados nas lavouras, batendo recorde histórico com 45,5 milhões de toneladas. A dependência do potássio chega a 97%. Quando o conflito no Irã prejudicou o fornecimento de ureia, o preço do insumo subiu 67% em poucas semanas. O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022 e mantido por governos de direita e esquerda, busca reduzir essa dependência com investimentos estimados em R$ 25 bilhões até 2030. A lógica não exige matéria-prima nacional – é possível importar rochas do Marrocos ou usar gás da Argentina e da Bolívia para fabricar fertilizantes no Brasil, agregando valor internamente. Isso inverteria a lógica do Brasil como mero exportador de matéria-prima, transformando o país em um ator industrial relevante em cadeias que conectam vizinhos sul-americanos e parceiros africanos.

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Infraestrutura digital e o desafio regulatório

Na área digital, o Brasil concentra a maior parte da infraestrutura digital em construção na América Latina. Empresas dos Estados Unidos e da China já contratam energia e anunciam investimentos bilionários. O problema é que o país tem energia abundante e cara, com um setor elétrico fragmentado por lobbies e interesses regionais no Congresso, limitando o potencial. Os impostos também atrapalham. O governo lançou a Política Nacional de Data Centers em 2025 e o regime Redata para reduzir barreiras a investimentos, mas a regulação ainda está travada no Senado. Existe uma oportunidade para o Brasil se posicionar como hub digital, especialmente após o conflito no Irã afastar investidores de lugares como Dubai. Essa janela não ficará aberta por muito tempo e depende mais de coordenação política do que de recursos naturais. O próximo presidente tratará a política digital como assunto de Estado? Terá uma autoridade de alto escalão coordenando essa agenda, ou ela continuará espalhada pelos ministérios?

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Minerais críticos: nióbio, terras raras e lítio

O Brasil detém 94% das reservas mundiais de nióbio e a segunda maior reserva de terras raras do planeta. Esses recursos estão no centro da disputa entre Estados Unidos e China, e qualquer movimento do Brasil será acompanhado de perto por ambas as potências. Um projeto de lei em tramitação busca estruturar a política do setor, mas o país precisa antes distinguir o que é estratégico para si do que é estratégico para o mundo. O nióbio e certas terras raras pesadas são escassos globalmente e altamente estratégicos para os Estados Unidos. O lítio, disponível em muitos outros países, atrai capital privado com base em critérios econômicos e tolera menos interferência estatal. Tratar todos esses minerais da mesma forma é um erro.

Defesa, agricultura, energia, inteligência artificial e minerais críticos são apenas alguns dos temas estratégicos que mobilizam parte do governo e do empresariado, mas raramente são abordados com profundidade no debate eleitoral. Mais do que as propostas, vale ter atenção aos assessores e conselheiros que serão chamados a colaborar na montagem do próximo governo.