A busca pela perfeição estética deixou de ser por vaidade para tornar-se uma operação de vigilância biopolítica e, acima de tudo, um modelo de negócios de alta rentabilidade. Produções audiovisuais recentes, como o visceral A Substância (2024) e a sátira distópica The Beauty: Lindos de Morrer (no ar, na Hulu), não são “apenas” ficções de “body horror”, mas a manifestação máxima do que Michel Foucault descreveu como o corpo dócil, agora sequestrado pela engrenagem implacável da economia da atenção.
Corpo dócil e a ortopedia social
Para Foucault, um corpo é dócil quando pode ser submetido, transformado e aperfeiçoado. Na modernidade tardia, essa docilidade é fabricada por uma “ortopedia social” que encontrou no algoritmo seu maior aliado. O olhar do outro, antes restrito ao espaço físico, agora é onipresente via redes sociais. A vigilância é constante, e a punição para o “corpo não conforme” é a invisibilidade digital. Além disso, o corpo feminino é tratado como uma soma de unidades de negócio: a pálpebra, os lábios, as nádegas; cada qual precisando de uma intervenção técnica constante e específica para manter sua “utilidade” social.
Monetização da dismorfia corporal
O grande motor desse show de horror não é apenas cultural, mas estritamente econômico. Vivemos a monetização da dismorfia corporal. A indústria não vende apenas produtos; ela vende a cura para inseguranças que ela mesma injetou no imaginário coletivo. Assim como um software, os padrões de beleza “expiram”. O que era o preenchimento ideal ontem é a “harmonização excessiva” a ser revertida hoje. Essa rotatividade garante um fluxo de caixa ininterrupto para a indústria estética, já que o que nunca muda é a obsolescência programada do rosto.
As plataformas digitais lucram com o tempo de tela. Estudos indicam que o conteúdo que gera comparação social negativa e dismorfia retém o usuário por mais tempo, criando um ciclo em que o ódio ao próprio corpo gera engajamento, que por sua vez gera dados para anúncios de procedimentos invasivos.
A Substância: metáfora da economia da juventude
No filme A Substância, a busca pela juventude eterna é a metáfora perfeita para essa economia. A protagonista aceita a premissa de que seu corpo original é um “erro” biológico. O horror reside na alienação: o corpo dócil torna-se um objeto para o próprio sujeito. A personagem habita uma dualidade onde a “versão melhorada” devora a “versão real”, ilustrando como o imperativo da beleza transforma a existência em um processo de manutenção industrial. É a punição do corpo que não aceita ser descartado pelo mercado.
The Beauty: beleza como DST fatal
Em The Beauty: Lindos de Morrer, a beleza é uma DST que garante a perfeição física ao custo da vida. Aqui, a docilidade é viral e sistêmica. A sociedade aceita a mutação fatal porque, na lógica do mercado da imagem, o valor do corpo “belo” e sua capacidade de gerar capital social e visual supera o valor da própria vida funcional. O horror é a constatação de que, para sermos “produtivos” na economia da imagem, precisamos nos submeter a uma automutilação ritualística.
Grotesco como espelho da exploração
A tendência atual de retratar a beleza como um show de horror é um grito contra a docilização extrema e a exploração financeira do trauma. Quando a arte utiliza o grotesco para falar de botox ou filtros, ela denuncia que o “padrão” é uma construção violenta e lucrativa. A juventude eterna, sob essa ótica, não é um triunfo da ciência, mas a prisão definitiva de um corpo que não pode mais envelhecer, pois está ocupado demais sendo uma mercadoria em constante atualização.



