Islândia repensa segurança diante de nova ordem global
A Islândia, uma das poucas nações do mundo sem exército permanente, vê-se forçada a repensar sua defesa após décadas de segurança garantida por aliados. O país insular do Ártico, que confiou sua proteção à Otan e aos Estados Unidos desde a independência em 1944, agora enfrenta um cenário incerto com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e suas ameaças à Groenlândia e à aliança atlântica.
O governo islandês convocou um referendo para 29 de agosto sobre a reabertura das negociações de adesão à União Europeia, congeladas desde 2013. A decisão reflete a preocupação gerada pelas declarações de Trump, que questionou o compromisso dos EUA com a Otan e sugeriu a anexação da Groenlândia, vizinha da Islândia.
Por que a Islândia não tem exército?
Com apenas 400 mil habitantes e densidade populacional de 3,8 pessoas por km², a Islândia é o país menos povoado da Europa. Cerca de 80% do território é composto por Terras Altas inóspitas, com geleiras, campos de lava e vulcões. Segundo Pia Hansen, diretora do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade da Islândia, "em nosso país, temos experiência com a presença de exércitos estrangeiros, mas não com o nosso próprio."
Uma pesquisa de 2024 mostrou que 72% dos islandeses se opõem à criação de forças armadas convencionais. A guarda costeira, bem equipada e eficiente, é a principal força de defesa, dedicada a resgate marítimo e vigilância de fronteiras. A base aérea de Keflavik recebe caças da Otan para patrulhas regulares.
O impacto de Trump e a ameaça russa
Em janeiro de 2025, no Fórum de Davos, Trump disse sobre aliados europeus: "Não sei se eles estariam lá por nós. Eles não estavam lá na Islândia, posso garantir." Embora a Casa Branca tenha esclarecido que ele se referia à Groenlândia, as palavras causaram espanto em Reykjavik. O cientista político Eirikur Bergmann, da Universidade de Bifröst, afirmou: "Os argumentos sobre a necessidade dos EUA de adquirir a Groenlândia poderiam ser igualmente aplicados à Islândia."
A invasão russa da Ucrânia em 2022 já havia elevado a percepção de ameaça na Europa. Agora, o interesse de Washington no Ártico intensifica as preocupações islandesas.
A aposta na União Europeia
O governo da primeira-ministra Kristrún Frostadóttir vê na UE uma alternativa de segurança. Embora a União Europeia não seja uma aliança militar, seus tratados contêm cláusulas de defesa mútua mais explícitas que a Carta da Otan, segundo Bergmann. O referendo de agosto decidirá se a Islândia retoma as negociações de adesão, paradas há mais de uma década.
Os defensores da adesão apontam benefícios como o euro, que traria estabilidade monetária em um país com inflação acima da média europeia. Os eurocéticos resistem, temendo a perda de soberania sobre os recursos pesqueiros, base da economia islandesa.
Com pesquisas mostrando divisão acirrada, o resultado do referendo é incerto. Em um mundo cada vez mais volátil, os islandeses precisam responder a uma pergunta que não faziam há décadas: quem garante sua segurança e como?



