Pressionado por inflação, crescente oposição doméstica e baixíssima popularidade, além do impacto global do fechamento do Estreito de Ormuz nos custos de produção devido ao aumento do preço do petróleo, os Estados Unidos chegaram a um acordo de cessar-fogo de 60 dias com o Irã. O memorando de entendimento, assinado pelo presidente Donald Trump, prevê a reabertura do Estreito de Ormuz e o desbloqueio dos portos iranianos. Como contrapartida formal, Israel deveria suspender os ataques ao Hezbollah e retirar-se do sul do Líbano.
Negociações futuras e programa nuclear
Durante o período de trégua, as negociações serão retomadas sobre o programa nuclear iraniano e as contrapartidas norte-americanas. No entanto, analistas consideram o acordo uma pausa temporária para atender às necessidades internas dos EUA. É provável que, findo o prazo, as ações bélicas sejam retomadas, dadas as prioridades da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA e a posição radical de Israel.
Estratégia de Segurança Nacional dos EUA
A guerra contra o Irã deve ser entendida como um desdobramento da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. O documento divide o mundo em esferas de influência com dois objetivos principais: a defesa do território americano e a contenção da China. A prioridade de Washington é o Hemisfério Ocidental, do Ártico à Antártica, incluindo Groenlândia e Canal do Panamá. Os EUA afirmam que impedirão a presença de potências extra-hemisféricas, como China, Rússia e Irã, e que bloquearão suas reservas estratégicas.
A estratégia também prevê países-chave em outras regiões para dividir responsabilidades pela hegemonia norte-americana. No Indo-Pacífico, os EUA contam com Japão, Coreia do Sul, Austrália e Índia. No Pacífico, as Filipinas ajudam a conter a China. Na Europa, os aliados são incentivados a custear sua própria defesa, mantendo um atrito reduzido com a Rússia. No Oriente Médio, a prioridade é menor, rejeitando a construção de nações (como a Palestina) e comprometendo-se apenas com dois objetivos: proteger Israel e impedir que qualquer nação, especialmente o Irã, se torne hegemônica na região.
Israel como potência regional
Nesse desenho, os EUA delegam outras áreas a nações regionais confiáveis. No Oriente Médio, o país-chave é Israel. A lógica é mútua, já que Israel declara publicamente seu objetivo de reformular a configuração estratégica regional e tornar-se a potência dominante (Grande Israel). Washington precisa dessa potência para concentrar suas forças na contenção da China, sem se envolver em novas guerras no Golfo.
Dentro desse quadro, a guerra contra o Irã é crucial para a estratégia dos EUA. O objetivo declarado inicial do conflito, em 28 de fevereiro, não foi a questão do urânio enriquecido, mas a mudança de regime para eliminar a ameaça iraniana aos objetivos estratégicos americanos. Um dos objetivos do memorando foi abandonado pela reação israelense, apesar da concordância inicial em suspender as hostilidades contra o Hezbollah, por pressão de Trump.
Estreito de Ormuz e corredores eurasianos
O Irã controla um dos lados do Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde transitam cerca de 20% do petróleo, óleo liquefeito, gás natural e fertilizantes globais. A capacidade de fechar, restringir ou ameaçar a passagem é uma arma estratégica equivalente a uma dissuasão tática. O corredor internacional norte-sul, criado em 2000 entre Rússia, Irã e Índia, estende-se por aproximadamente 7,2 mil quilômetros, de Mumbai, passando por portos iranianos, até o Mar Cáspio e São Petersburgo. A linha ferroviária China-Irã liga Xi'an ao porto seco Aprin, no Irã, com rodovias ao redor do Estreito de Málaca. Ambos os corredores passam pelo território iraniano e são vitais para a China, que compra petróleo iraniano com desconto e paga em moeda chinesa. A perda desses corredores representaria um duro golpe à competitividade industrial chinesa.
Limitações do cessar-fogo e perspectivas
A guerra, mais recentemente, ficou limitada ao controle iraniano do Estreito de Ormuz e ao bloqueio dos portos iranianos pela armada norte-americana, além de ataques isolados aos corredores eurasianos. As centrífugas e locais de produção de armas não foram atacados e agora serão objeto das negociações. Sem acordo, voltarão a ser alvos de ataques mais pesados.
Com o objetivo estratégico dos EUA de colocar Israel como potência principal no Oriente Médio, o Irã é a única variável que pode impedir a implementação da doutrina norte-americana. A recusa de Israel em aceitar as condições do memorando em relação ao Hezbollah e à saída do sul do Líbano, além da reivindicação dos países árabes do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, de que a normalização com Israel depende da criação do Estado palestino, ameaça a vigência do acordo temporário.



