O fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, deve reduzir a oferta de diversos alimentos e pressionar os preços nos supermercados brasileiros, apontam economistas consultados pelo g1. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima mais de 60% de chances de um evento muito forte entre novembro e janeiro.
Impactos imediatos e principais produtos afetados
Segundo Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, o fenômeno certamente impactará os preços dos alimentos, especialmente se afetar as janelas de plantio ou prejudicar a colheita. Os primeiros efeitos devem ser sentidos nas hortaliças, mais sensíveis às mudanças climáticas. Caso o El Niño seja intenso, alimentos cultivados por safra devem encarecer no ano seguinte.
Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, lista os principais produtos que devem ser afetados: milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz. O leite também pode ser impactado, dependendo do nível das chuvas no Sul do país. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) alerta que a pecuária será a atividade mais afetada no Centro-Oeste e Norte, onde pode faltar água para as pastagens.
Café: risco de perda de safra e qualidade
O El Niño causa irregularidade nas chuvas, com períodos de estiagem seguidos de chuvas intensas, aumentando o risco de floradas precoces e desuniformes nas lavouras de café. As flores podem ser abortadas ou formar grãos menores. Temperaturas elevadas e perda de água do solo também preocupam. Para o café arábica, mais sensível, pode haver perda de qualidade.
Celírio Inácio da Silva, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), afirma que o setor esperava uma safra recorde de mais de 66 milhões de sacas, mas as chuvas já atrasaram a colheita do conilon, reduzindo qualidade e produtividade. “Isso vai fazer com que a oferta não seja tão boa quanto se imagina e o mercado internacional, já sabendo que os estoques estão vazios, começa a ter especulações e isso pode fazer com que o preço da matéria-prima vá subir”, afirma. A indústria repassaria os preços aos consumidores. Para o café arábica, a principal preocupação é a produção de 2027; caso o El Niño seja intenso, o setor espera perda de 25% da produção.
Milho: queda na produtividade global
Em anos de El Niño, a produtividade média global de milho cai cerca de 4%, principalmente em regiões tropicais como sudeste Asiático, sul da China e África. No Brasil, o principal impacto atinge a segunda safra de milho. Chuvas irregulares atrasam o plantio da soja no Centro-Oeste, reduzindo o período ideal para plantar milho. Glauber Silveira, diretor executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), afirma que produtores optam por diminuir a área plantada ou trocar o grão pelo sorgo. “O que o produtor faz é se arriscar menos”, diz. O excesso de chuva no Sul preocupa mais que a seca no Centro-Oeste, pois reduz produtividade e aumenta doenças. Francisco Queiroz, especialista do Itaú BBA, aponta que a área plantada cresce menos devido a custos mais altos e margens menores. Uma queda na produção do Mato Grosso pode afetar os preços internacionais do milho.
Carne e leite: impacto indireto pelo milho e pastagens
Se o preço do milho subir em 2027, a carne também deve encarecer, já que o grão é ingrediente da ração para confinamento. Além disso, a menor disponibilidade de pastagens por déficit hídrico prejudica a produção de leite e o ganho de peso dos animais. Danyella Bonfim, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que o calor excessivo causa estresse nos animais, que passam a comer menos.
Frutas e hortaliças: chuvas e secas regionais
No Sul, chuvas volumosas podem gerar podridão e atraso no plantio de cebola, batata, tomate e cenoura. A maçã pode ser afetada na florada, e a uva no Rio Grande do Sul pode ter queda na produção por excesso de umidade. Em algumas regiões, a redução dos reservatórios dificulta a irrigação, afetando frutas sensíveis como manga, mamão e uva. Por outro lado, no Nordeste, o tempo seco favorece melão e melancia em lavouras irrigadas.
Para a laranja, temperaturas acima da média no cinturão citrícola paulista podem prejudicar a florada, causando abortamento de flores e queda de frutos jovens. A safra já estava estimada com redução por falta de rentabilidade e doenças; com o El Niño, tende a ser ainda menor, elevando os preços do suco e diminuindo a qualidade, segundo Wharlhey Nunes, analista do Itaú BBA.
Cana-de-açúcar: chuvas fora de época e estresse hídrico
O Itaú BBA aponta que o fenômeno pode provocar chuvas fora de época no Centro-Sul, responsável por 90% da moagem de cana. O excesso de umidade reduz a qualidade e atrasa o acúmulo de sacarose, aumentando o risco de colheita antes do ponto ideal. No Norte e Nordeste, a seca e o calor geram estresse hídrico e térmico, comprometendo o desenvolvimento da planta.
Inflação e perspectivas
Por causa do El Niño, o Ministério da Fazenda deve aumentar sua previsão oficial para a inflação de 2026, que em maio era de 4,5%. A expectativa é que os preços subam mais do que o estimado.



