O porto de La Guaira, a área mais devastada pelos terremotos que atingiram a Venezuela há seis dias, transformou-se em um necrotério improvisado. Dezenas de sacos mortuários estão empilhados no chão, e médicos legistas com jalecos azuis trabalham ao ar livre sob lonas. A cena foi constatada por jornalistas da agência AFP.
Número de mortos ultrapassa 1.700
O último balanço oficial contabiliza 1.719 mortos, mas o número continua subindo. Os legistas estão sobrecarregados, e os necrotérios dos hospitais colapsaram nos primeiros dias devido à grande quantidade de óbitos. A ONU estima que haja cerca de 50 mil desaparecidos.
Famílias aguardam identificação
Wilker Molalla, de 25 anos, espera ser chamado para identificar os corpos da irmã, dos sobrinhos e dos filhos do irmão. Ele perdeu 9 familiares; apenas ele e o irmão sobreviveram por estarem trabalhando. A espera é longa, e os familiares carregam buquês de flores coloridas enquanto criticam a falta de pessoal para atender à emergência.
Antony Marcano, cozinheiro de 41 anos, conseguiu identificar o corpo da filha: "Reconheci pelo anel que eu dei a ela".
Ajuda internacional e doações
Nesta segunda-feira, a ONU anunciou o fornecimento de 10 mil bolsas mortuárias à Venezuela. Representantes de funerárias privadas oferecem serviços gratuitos de traslado e cremação. Carros funerários ficam estacionados do lado de fora do porto.
Darwin Silva, de 37 anos, transporta o corpo da mãe, encontrada sob uma viga no conjunto habitacional Hugo Chávez I. "Já foi reconhecida, já me deram a certidão de óbito", afirmou. O conjunto de 3.400 apartamentos foi evacuado, e grandes rachaduras se espalham pelos edifícios.
Condições precárias no porto
Médicos e técnicos forenses trabalham ao ar livre com cadáveres sob lonas sustentadas por quatro hastes. Alguns corpos estão cobertos com cal, procedimento considerado desnecessário por especialistas. No porto, são emitidos certificados de óbito e autorizações para cremação. Um caminhão identificado como Unidade Especial de Resíduos Hospitalares recolhe amostras para as autópsias.
Jenny Contreras, de 28 anos, dorme com o marido e o filho de quatro anos em um colchão na rua desde os tremores. "A maioria dos prédios na parte de trás do conjunto desabou completamente", disse.



