Fim da hegemonia: mundo multiplex redefine ordem global
Mundo multiplex: o fim da hegemonia ocidental

O mundo atravessa transformações que sepultam, em definitivo, a era da agenda liberal incontestada do pós-guerra fria. Se nos anos 1990 o “Consenso de Washington” parecia o único roteiro possível, o cenário atual revela uma fragmentação de normas que desafia a lógica tradicional do Ocidente. O atual tabuleiro internacional é complexo e desafiador para o padrão hegemônico predominante das últimas décadas. Mesmo com a aparente supremacia militar e econômica, potências ocidentais começam a perceber que a ideia de vitória incondicional de uma nação sobre outra é algo cada vez mais distante.

Três vetores da transformação global

Para compreender esse novo mapa, é preciso observar a convergência de três vetores fundamentais: a resiliência dos países submetidos a sanções diversas, o protagonismo das potências médias e a consolidação da ordem multiplex. O primeiro pilar dessa mudança é a perda de eficácia da coerção econômica como ferramenta absoluta. Por décadas, o sistema financeiro internacional foi operado pelos Estados Unidos como uma extensão automática do seu poder.

Contudo, países como Rússia, Irã e, em setores específicos, a própria China, demonstraram uma resiliência que escapa aos manuais ortodoxos. A Rússia reorganizou fluxos comerciais e fortaleceu laços com o Sul Global; o Irã converteu o isolamento em autonomia tecnológica e redes alternativas; e a China responde às restrições em semicondutores com o fortalecimento de instrumentos como o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (Cips, na sigla em inglês) e o uso crescente de moedas locais em trocas bilaterais.

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A desdolarização como estratégia de blindagem

Esse último ponto é crucial: a migração para moedas nacionais em acordos entre grandes economias não é apenas um desejo simbólico, mas um mecanismo pragmático para blindar transações contra a “armamentização” do dólar (o uso dessa moeda como arma). Essa capacidade de adaptação prova que a interdependência global foi reconfigurada por mecanismos alternativos pouco visíveis que permitem a sobrevivência fora do eixo tradicional.

O fato é que a diversificação de parcerias e a formação de arranjos alternativos de cooperação têm alterado a lógica geopolítica global. A punição econômica já não garante a rendição, mas acelera sistemas paralelos que corroem a hegemonia absoluta que caracterizava o modus operandi ocidental.

Potências médias e o minilateralismo

Nesse vácuo de autoridade unipolar, emergem com vigor as potências médias – como o Brasil, a Índia, a Turquia e a Indonésia, entre outras. Elas não buscam substituir o hegemon, mas sim atuar como mediadoras e multiplicadoras de novas coalizões. Sua força reside na diplomacia flexível: a recusa em se alinhar automaticamente a qualquer bloco amplia sua margem de manobra. Soma-se a isso a ascensão do minilateralismo – arranjos menores, mais ágeis e temáticos que permitem a esses Estados contornar a paralisia das grandes instituições multilaterais.

Ao liderar grupos focados em interesses específicos, as potências médias aumentam seu poder de barganha, agindo como “Estados-pivô” que negociam de forma transacional com diferentes polos. Diferentemente da guerra fria, essas nações parecem tomar consciência de que no atual tabuleiro internacional elas não são meros peões; são Estados que aproveitam a disputa entre os grandes para projetar influência regional e defender interesses nacionais. Nesse sentido, o Brasil, ao apostar na liderança da agenda climática e na mediação de conflitos, busca funcionar como o oxigênio de um sistema que se recusa a ser binário, provendo o equilíbrio necessário para que a contestação resulte em negociação, não em colapso.

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Ordem multiplex: múltiplas narrativas simultâneas

Por sua vez, o conceito de ordem multiplex, desenvolvido por Amitav Acharya, oferece o arcabouço para essa realidade. A metáfora é precisa: o mundo tornou-se um cinema multiplex, em que várias salas exibem narrativas distintas simultaneamente. Não há mais uma “tela única” ditando valores universais. Coexistem diferentes normas e instituições sobrepostas – como o G-7 e o Brics+. O mundo multiplex é marcado pela interconectividade de múltiplos centros de poder que não podem ser ignorados. Os Estados Unidos continuam sendo um ator central, mas já não detêm o monopólio da direção deste complexo global.

O erro estratégico do Ocidente tem sido minimizar essa tríade fundamental, central à abordagem multiplex. Ao subestimar a resiliência de adversários, a eficácia do minilateralismo e a autonomia das potências médias, as nações tradicionais tendem a corroer sua própria capacidade de coordenação estratégica e efetividade na influência dos rumos do tabuleiro internacional.

O futuro da ordem global

O futuro não aponta para uma nova hegemonia substituta, mas para uma ordem de coexistência e disputa constante. Esse é o novo roteiro em exibição no “mundo multiplex”. Entender que o tabuleiro já não comporta um único centro (ou condomínio hermético) é a dura constatação que as lideranças globais precisam assimilar. É nesse espaço plural e de negociação perpétua que se decidirá quem terá voz no século 21.