O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, resiste à pressão crescente e afirmou nesta segunda-feira (22) que não pretende renunciar. A declaração ocorre em meio a uma crise política sem precedentes, com pedidos de renúncia de dezenas de parlamentares trabalhistas e a saída de ao menos quatro ministros do governo.
Pressão interna e rivalidades
A pressão contra Starmer se intensificou após Andy Burnham, prefeito de Manchester e principal rival trabalhista, conquistar uma cadeira no Parlamento na quinta-feira (19). Burnham, de 56 anos, estava impedido de concorrer à liderança por não ser membro do Parlamento, mas agora abre caminho para um desafio direto a Starmer. A vitória reacendeu a esperança entre parlamentares de que Burnham, conhecido por suas habilidades de comunicação, possa revitalizar o partido, que perdeu apoio sob a liderança de Starmer.
Outros nomes cotados para substituir Starmer incluem Wes Streeting, ministro da Saúde e Assistência Social, de 43 anos, visto como centrista e defensor da contenção fiscal. Streeting, que seria o primeiro primeiro-ministro abertamente gay da Grã-Bretanha, venceu por apenas 528 votos em seu distrito em 2024, tornando-o vulnerável. Angela Rayner, ex-vice-primeira-ministra, renunciou em 2025 após admitir irregularidades fiscais, o que dificulta sua candidatura. Ed Miliband, ministro da Energia, de 56 anos, já liderou o partido entre 2010 e 2015 e afirmou estar "imunizado" contra a vontade de repetir o feito. Shabana Mahmood, ministra do Interior, de 45 anos, é a primeira mulher muçulmana a ocupar o cargo, mas é impopular entre a ala esquerda. Al Carns, ministro adjunto da Defesa, de 46 anos, veterano do Afeganistão, é visto como uma voz nova.
A crise se aprofunda
Starmer defendeu sua permanência durante uma reunião de gabinete de emergência, afirmando que a renúncia traria mais caos. "Eu assumo a responsabilidade por esses resultados eleitorais, e assumo a responsabilidade por entregar a mudança que prometemos. (...) O Partido Trabalhista tem um processo para desafiar um líder e esse processo não foi acionado. O país espera que continuemos governando. É isso que estou fazendo e o que devemos fazer como gabinete", afirmou Starmer, segundo comunicado divulgado por seu gabinete.
Segundo a BBC, ao menos 81 dos 403 parlamentares trabalhistas pediram que ele renuncie imediatamente ou apresente um prazo para deixar o governo — número mínimo necessário para desafiar o premiê, mas é preciso um nome consensual. O jornal "Telegraph" citou fontes do gabinete indicando que seis ministros pediriam sua renúncia: Shabana Mahmood, John Healey (Defesa), Ed Miliband, Lisa Nandy (Cultura), Yvette Cooper (Relações Exteriores) e Wes Streeting. O secretário da Habitação, Steve Reed, publicou apoio a Starmer durante a reunião: "Essa instabilidade traz consequências para a vida das pessoas. Aqueles que mais serão prejudicados são os que nos elegeram há menos de dois anos. Devemos nos unir em torno do primeiro-ministro".
Em meio à crise, três renúncias ocorreram nesta terça-feira: Miatta Fahnbulleh, ministra júnior do departamento de Habitação, disse que nem ela nem o público acreditam que Starmer seja capaz de guiar o país. Alex Davies-Jones afirmou que "o país falou, e precisamos ouvir". Jess Phillips declarou que Starmer "é um bom homem, mas percebeu que isso não é o suficiente". Apesar das saídas, autoridades de alto escalão permanecem no governo. Fontes disseram à BBC que mais renúncias devem ocorrer ainda nesta terça.
Impacto e próximos passos
O rei Charles III fará na quarta-feira (13) um discurso do Estado da União no Parlamento, evento em que o governo britânico alinha as pautas prioritárias para o próximo ano. A crise política no Reino Unido coloca em risco a continuidade do governo Starmer, que enfrenta desafios internos e externos, incluindo a guerra com o Irã e a insatisfação popular.



