Maria Rosa: a Joana d'Arc do Contestado que liderou milhares aos 15 anos
Maria Rosa: a Joana d'Arc do Contestado

Na Guerra do Contestado, conflito armado entre 1912 e 1916 no Sul do Brasil, uma adolescente de cerca de 15 anos rompeu o padrão de passividade feminina ao assumir a liderança de milhares de sertanejos. Conhecida como a "Joana d'Arc do Sertão", Maria Rosa combinava práticas religiosas com funções estratégicas, tornando-se uma das figuras mais emblemáticas da guerra, mesmo sem registros fotográficos que confirmem sua aparência.

Contexto da Guerra do Contestado

A Guerra do Contestado foi travada em uma área disputada pelos estados do Paraná e de Santa Catarina. Pesquisadores afirmam que, além da disputa de limites, o conflito foi marcado por disputas por terra, expulsão de pequenos agricultores e posseiros, e transformações econômicas provocadas pela construção da ferrovia que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul e pela exploração madeireira. "Com a concessão de grandes áreas de terra a empresas estrangeiras para a construção da ferrovia, milhares de caboclos perderam suas terras e, depois da conclusão das obras, também o trabalho", explica Nilson Cesar Fraga, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do Observatório da Região e da Guerra do Contestado.

Parte dessa população se organizou em torno da liderança religiosa do monge José Maria, que defendia uma sociedade mais justa e inspirou comunidades conhecidas como "redutos". Após sua morte em 1912, o movimento continuou e foi visto pelo governo republicano como ameaça à ordem, resultando no envio de tropas do Exército. O conflito deixou entre 10 mil e 20 mil mortos.

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Ascensão de Maria Rosa

Maria Rosa, filha de um pequeno agricultor, ganhou projeção em 1914 no reduto de Caraguatá, em Santa Catarina. Segundo Fraga, ela não foi apenas uma figura religiosa, mas uma estrategista militar que liderou milhares de sertanejos contra as forças da República. Sua liderança se consolidou em um momento de reorganização do movimento, após a morte do monge José Maria. De acordo com a historiadora Raquel Panke Bittencourt, professora da PUCPR, Maria Rosa tinha cerca de 15 anos e era neta de uma liderança local, Eusébio Ferreira dos Santos. "A autoridade não vinha apenas da força física, mas da legitimidade espiritual. Se a divindade escolhia, o povo seguia", afirma Bittencourt.

A jovem passou a relatar visões e mensagens atribuídas ao monge morto, colocando-se como intermediária entre o sagrado e a comunidade. Ela presidia rituais, mantinha a moral dos sertanejos e organizava a logística e dava ordens táticas. Bittencourt afirma que ela se tornou "o cérebro e a alma" do reduto, enquanto Fraga destaca que suas decisões eram apresentadas como orientações divinas, garantindo coesão e obediência.

Comparação com Joana d'Arc

O apelido "Joana d'Arc do Sertão" circulou ainda durante e após o conflito. Para Fraga, a comparação tem respaldo biográfico e simbólico. Assim como Joana d'Arc, Maria Rosa assumiu o comando na adolescência e baseava sua autoridade em experiências divinas. "Ela afirmava receber instruções diretas do espírito do monge José Maria, o que legitimava suas decisões políticas e militares perante os fiéis", afirma. Fraga destaca que ela montava a cavalo, portava estandartes e participava ativamente da organização estratégica, como na vitória em Caraguatá.

Bittencourt aponta que a analogia ajuda a dimensionar o impacto da jovem, mas ressalta limites: "Há o risco de 'europeizar' uma figura profundamente enraizada no messianismo do caboclo brasileiro".

Outras mulheres no conflito

Maria Rosa não foi um caso isolado. Mulheres como Chica Pelega, Nega Jacinta e Querubina também ganharam relevância. Segundo o historiador Marcelo Johny Maciel, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, essas mulheres concentravam autoridade espiritual, política e militar. "Foi preciso definir que as mulheres eram as únicas capazes de conduzir esse processo", afirma Maciel.

No entanto, o reconhecimento histórico foi limitado. Fraga explica que nos registros militares, mulheres foram tratadas como figuras "anormais" ou associadas ao fanatismo. "A liderança de uma adolescente era vista como prova de atraso", diz. A geógrafa Vanessa Maria Ludka, doutora pela UFPR, afirma que "a participação feminina foi, em grande medida, silenciada ou marginalizada nas narrativas oficiais".

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Destino incerto

O destino de Maria Rosa segue incerto, com versões de morte em combate ou "encantamento". A hipótese mais aceita é que ela morreu em 1915, durante uma ofensiva militar ao reduto de Santa Maria, na região de Lebon Régis, Santa Catarina. Segundo relatos, ela teria sido morta ao tentar atravessar um rio sob fogo das tropas. Fraga conclui: "A trajetória de Maria Rosa permanece pouco difundida porque ela representa o ponto de intersecção entre três grupos marginalizados pela história oficial brasileira: os pobres do campo, os vencidos em guerra e as mulheres".