Para muitos fãs de esportes norte-americanos, a Copa do Mundo de 2026 causou um impacto profundo. Com estádios lotados, audiência televisiva em disparada e torcedores ocupando bares e festivais, o torneio serviu como um lembrete vívido de que o futebol não é um esporte de nicho tentando entrar no mainstream norte-americano — é o esporte dominante no mundo, e os Estados Unidos ainda estão tentando alcançar sua magnitude.
Recordes de público e audiência
O torneio já está a caminho de bater o recorde de público. Nas primeiras 44 partidas, o público total ultrapassou 2,85 milhões, com os estádios operando em média a cerca de 99,6% da capacidade, de acordo com uma análise da Reuters baseada em dados da FIFA. A transmissão da Fox da vitória dos EUA sobre a Austrália atraiu 16,2 milhões de telespectadores, número que provavelmente será superado à medida que os norte-americanos avançarem para as fases eliminatórias.
“Acho que muitas pessoas que sempre acharam o esporte chato estão descobrindo que ele é emocionante”, disse Bob Dorfman, analista de marketing esportivo. “E isso está ajudando o futebol.”
A história de Vozinha e o alcance global
Evan Hand, criador de conteúdo esportivo, já tinha visto momentos virais antes, mas um em particular mudou sua compreensão sobre o alcance do futebol. “O grande momento para mim foi a história do Vozinha”, disse Hand. “Foi ver esse cara ganhar 15 milhões de seguidores praticamente da noite para o dia jogando por uma seleção que, se você fosse olhar no mapa, não saberia me dizer onde fica Cabo Verde agora. (O astro da NFL) Tom Brady tem menos seguidores do que esse cara, e ele teve, sem dúvida, a trajetória mais dominante da história do esporte. Então, esse foi um momento especial para mim.”
Vozinha, goleiro de 40 anos de Cabo Verde, teve uma atuação com sete defesas no empate sem gols contra a Espanha, grande favorita, transformando-o da noite para o dia em uma sensação nas redes sociais.
Paixão global e entusiasmo nos EUA
Dorfman disse que os torcedores norte-americanos estão entrando em contato não apenas com jogadores de elite, mas também com a paixão dos torcedores que viajam para acompanhar a seleção e das comunidades de imigrantes, que tratam a Copa do Mundo mais como um feriado nacional do que como um evento esportivo. “Nos Estados Unidos, há todos esses estrangeiros que estão chegando ou imigrantes que já estão aqui e estão simplesmente enlouquecidos com isso”, disse ele. “E acho que, até certo ponto, os cidadãos norte-americanos estão com um pouco de inveja dos torcedores escoceses e dos brasileiros. Eu estava assistindo ao jogo do Brasil ontem e fiquei com um nó na garganta ao vê-los cantando o hino nacional. A emoção é enorme. A empolgação é enorme. Há grandes estrelas jogando que os norte-americanos finalmente estão podendo ver de perto.”
Do lado de fora do Los Angeles Stadium, antes da partida de quinta-feira entre EUA e Turquia, os torcedores criaram uma atmosfera de carnaval, cantando músicas, tocando tambores e soltando bombas de fumaça nas cores vermelho, branco e azul. O sucesso da seleção dos EUA no torneio até agora — vencendo suas duas primeiras partidas e liderando o grupo — estimulou o entusiasmo.
Alicia Rutz, uma ex-jogadora vestida de Mulher Maravilha a caminho do jogo com o marido, que apareceu fantasiado de Ted Lasso, o técnico fictício da série de TV, disse que os norte-americanos começaram a apreciar os pequenos detalhes do esporte. “É muito divertido ver os norte-americanos entendendo o futebol, amando o futebol”, disse Rutz. “Eles não estão torcendo apenas pelos gols, estão torcendo pelas coisas certas — as jogadas certas, os toques certos — e é muito divertido ver os norte-americanos adotarem o futebol e amá-lo.”
Será que vai durar?
O futebol tem uma base mais sólida nos EUA do que nas gerações anteriores: acesso mais amplo a transmissões internacionais, uma presença crescente da MLS, um futebol feminino de destaque, torcidas latinas e de imigrantes, e uma cultura juvenil cada vez mais familiarizada com estrelas como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e Christian Pulisic. Times amadores estão atraindo torcedores, principalmente em locais onde faltam ligas profissionais norte-americanas.
Mas o mercado esportivo norte-americano está saturado, e a NFL continua sendo a força comercial dominante do país. “A NFL é a rainha aqui”, disse Dorfman. “Eles fizeram um excelente trabalho em dominar o mercado, e é para lá que toda a atenção se volta. O Super Bowl é o Super Bowl e, mesmo que a final da Copa do Mundo tenha dez vezes mais público, este é um país do futebol norte-americano. Não sei se o futebol vai conseguir alcançar esse nível algum dia.”
Hand também é cauteloso. Ele vê um torneio capaz de inspirar jovens torcedores, mas não necessariamente forte o suficiente para manter os holofotes nacionais quando a temporada de futebol norte-americano voltar. “Acho que, neste momento, estamos todos muito empolgados com o futebol”, disse Hand. “E há milhares de pequenos Timmys e pequenas Emilys que admiram esses ícones como Messi, Ronaldo e Pulisic. Eles dizem: ‘Quero ser como eles quando crescer’. Mas, ao mesmo tempo, centenas de milhares dessas crianças ainda idolatram os Patrick Mahomes, os Arch Mannings, os Alex Ovechkins e as Caitlin Clarks. Quando agosto chegar e tivermos a pré-temporada da NFL, o ‘Hard Knocks’ e a Semana Zero do futebol norte-americano universitário, as pessoas vão, em grande parte, esquecer que isso chegou a acontecer.”
Por enquanto, porém, a Copa do Mundo conseguiu o que gerações de evangelistas do futebol nos Estados Unidos tentaram fazer: tornar a magnitude do esporte impossível de ignorar. A lição para os torcedores norte-americanos talvez não seja que o futebol esteja finalmente se tornando enorme. É que ele já era.



