Milhares de pessoas acompanharam, na manhã desta quinta-feira (2), o tradicional cortejo cívico do 2 de Julho em Salvador, que celebrou os 203 anos da Independência da Bahia. Sob forte sol, o desfile percorreu as ruas da capital baiana, reunindo fanfarras, filarmônicas, grupos culturais e manifestações populares em homenagem aos heróis e heroínas da luta pela libertação do Brasil.
Data histórica e significado nacional
A data marca a expulsão definitiva das tropas portuguesas do território baiano, em 2 de julho de 1823, quase dez meses após a Proclamação da Independência por Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822. Para muitos historiadores e baianos, foi esse momento que consolidou, de fato, a independência brasileira. Enquanto a maior parte do país já reconhecia o Brasil como nação independente, a Bahia ainda enfrentava intensos confrontos entre brasileiros e portugueses. A luta começou em 19 de fevereiro de 1822 e terminou apenas com a retirada das tropas lusitanas de Salvador.
Desfile emociona multidão
Ao longo do percurso entre a Lapinha e o Campo Grande, o desfile foi acompanhado por crianças, idosos e famílias inteiras, que se espalharam pelas calçadas para assistir à passagem dos carros do Caboclo e da Cabocla, fanfarras escolares, filarmônicas e grupos culturais. No bairro do Santo Antônio Além do Carmo, uma casa decorada com as cores do Brasil se transformou em um pequeno palco para celebrar a história da Independência. Em frente ao imóvel, mulheres caracterizadas como Maria Quitéria, Joana Angélica, Maria Felipa, Catarina Paraguaçu e as tradicionais cabeças baianas cantavam o Hino ao Dois de Julho, arrancando aplausos e emocionando moradores e visitantes.
Personagens históricas e educação popular
Entre elas estava a cantora e maestrina Célia Zaim, caracterizada como Maria Quitéria. Há anos, ela percorre escolas públicas e particulares ensinando o Hino ao Dois de Julho e contando a história da Independência da Bahia. "A gente percebe que apenas 3% dos baianos sabem cantar o nosso hino. Por isso, comecei a visitar escolas para ensinar não só a música, mas também a história que existe em cada estrofe", contou. Segundo Célia, cada trecho do hino homenageia personagens e símbolos fundamentais da guerra pela Independência. Ela afirma que escolheu vestir a personagem de Maria Quitéria para aproximar as novas gerações da história baiana. "Até hoje eu vou de Maria Quitéria por onde passo, para que essas gerações vejam que a Bahia é elemento principal na história do Brasil", afirmou.
Memórias e orgulho baiano
A celebração também despertou lembranças em quem participou do cortejo. Depois de muitos anos sem comparecer ao desfile, Edenailde Araújo decidiu voltar ao Dois de Julho levando o filho, Reinaldo Nonato. "Há muitos anos eu vinha nessa festa com meus pais. Hoje eles já não estão mais aqui, mas decidi voltar. É a primeira vez que trago meu filho, que é uma criança especial. Estou achando maravilhoso e relembrando os momentos que vivi com eles", disse, emocionada. Enrolado na bandeira da Bahia e exibindo tatuagens do mapa e da bandeira do estado nos dois braços, Eduardo Pinheiro também acompanhava a festa com orgulho. "É a festa mais importante do mundo. Temos que valorizar todo o trabalho que tiveram para nos libertar. É Bahia acima de tudo e o resto é resto", afirmou.
Participação popular e reconhecimento nacional
As guerras da Independência na Bahia tiveram forte participação popular. Negros libertos e escravizados, ganhadeiras, professores, profissionais liberais, senhores de engenho e diversos outros grupos sociais se uniram para pôr fim ao domínio português. Os combates mobilizaram milhares de moradores de cidades como Cachoeira, São Félix e Salvador. Dessa mobilização surgiram personagens que entraram para a história, como Maria Quitéria, Maria Felipa, Joana Angélica, João das Botas, Corneteiro Lopes, Tambor Soledade e o cacique Bartolomeu Jacaré. A importância da celebração para o cenário nacional ganhou ainda mais reconhecimento com a aprovação, no Senado, de um projeto de lei que torna Salvador, simbolicamente, a capital do Brasil durante o dia 2 de julho.
Programação oficial
A programação oficial começou na madrugada, com alvorada e queima de fogos no Largo da Lapinha, local simbólico de importantes batalhas. Por volta das 8h, foram iniciadas as cerimônias cívicas, com hasteamento das bandeiras por autoridades e execução do Hino Nacional pela Banda de Música da Marinha do Brasil. Em seguida, o desfile cívico contou com os carros do Caboclo e da Cabocla, Caboclos de Itaparica, fanfarras municipais, estaduais e da Região Metropolitana de Salvador, filarmônicas e grupos populares. O cortejo fez homenagens aos heróis da Independência, com paradas em frente ao Convento da Soledade, à Ordem Terceira do Carmo e à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. A festa ainda conta com a Marujada da Independência, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, que começou às 11h e tem previsão de término para o início da noite. Às 16h, as celebrações seguem no Campo Grande, com hasteamento das bandeiras, execução dos hinos militares, deposição de coroas de flores no Monumento ao Dois de Julho e acendimento da Pira do Fogo Simbólico pelo atleta Antônio Lourenço Pereira, conhecido como "Trem de Ferro", homenageado desta edição. A programação será encerrada às 17h30, com o tradicional Encontro de Filarmônicas, sob direção artística do maestro Fred Dantas e o show do cantor Mário Bezerra, acompanhado da Oficina de Frevos e Dobrados.
Versos que ecoam resistência
"Nunca mais, nunca mais o despotismo. Regerá, regerá nossas ações". Os versos do Hino ao Dois de Julho seguem ecoando como símbolo da resistência baiana e da luta pela liberdade. A data de 2 de julho é considerada por muitos como a verdadeira independência do Brasil, e as comemorações em Salvador reforçam o orgulho e a memória dos heróis que lutaram pela libertação do país.



