Em meio aos livros na estante de Ferréz, a foto de um homem chama atenção. Mas não é o retrato de ninguém da família do escritor. “Tem gente que até pergunta se é meu avô”, ele brinca. A imagem, na verdade, é de Hermann Hesse, autor alemão vencedor do prêmio Nobel de literatura em 1946.
“Foi dele o primeiro livro que eu li na vida: Demian (romance de 1919). Escolhido totalmente ao acaso. Eu me encantei pela ilustração de capa, que mostrava uma figura de Medusa”, diz Ferréz.
Depois desse livro tive certeza de que não queria ser outra coisa. Eu queria ser leitor.
Ferréz, sobre 'Demian', obra de Hermann Hesse
Absolute literatura. Ferréz mostra sua biblioteca ao Estadão. Foto: Bruno Nogueirão/Estadão
A influência de autores como Hesse formaram um escritor de sucesso. Ferréz publicou no início dos anos 2000 obras como Capão Pecado e Manual Prático do Ódio, referências da literatura marginal. E chegou a escrever o posfácio de uma edição de Knulp, do próprio Hesse, publicada pela Todavia.
Talvez a estante mais afetiva da casa de Ferréz seja justamente a menor. Baixinha, na altura da cintura, ela guarda sua coleção de cordéis e fanzines. Foi ali que tudo começou. Ainda criança, o pequeno Reginaldo lia cordéis para o pai, que gostava das histórias e comprava os exemplares. “Ele tinha dificuldade para ler, então eu dizia: deixa que eu leio para você.”
Ferréz é mais um escritor que topou abrir sua biblioteca à série Coleção de Livros do Estadão, onde visitamos diferentes personalidades para mostrar um pouco de seus acervos literários. Assista ao episódio no topo da matéria e veja aqui todos os vídeos já publicados.
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“A vida toda eu quis ter muitos livros. Mas quando você nasce na favela, mesmo as coisas mais simples são difíceis de conseguir. Só que existe aquele ditado: cuidado com o que você quer, porque pode acabar acontecendo. E aconteceu.” Hoje, Ferréz tem um cômodo da casa dedicado apenas a guardar os livros de sua coleção, que já invadiram o escritório, os corredores e até o closet.
Ferréz mostra sua biblioteca ao Estadão. Foto: Bruno Nogueirão/Estadão
A seguir, cinco indicações feitas por Ferréz ao longo do tour por suas estantes:
‘Arquipélago Gulag’, de Alexander Soljenítsin
“Eu tenho uma obsessão pelos gulags. Não sei explicar o porquê. Eu dou muitas palestras no sistema prisional, pode ter a ver com isso. E a leitura desse aqui foi um acontecimento para mim. É a melhor abertura de livro que eu já li”, analisa Ferréz.
‘Dissecando Stephen King’, de Stephen King
Uma prateleira inteira da estante de Ferréz é dedicada ao autor de suspense e terror. “Comecei a lê-lo numa época da juventude em que eu estava muito depressivo. E quis buscar um autor que pudesse me acompanhar, sabe?”. King também foi uma referência de estilo. “Eu não fiz curso, de escrita criativa, de nada. E o King muitas vezes começa os livros falando do próprio método de escrita. Algo que é raro, geralmente as pessoas não gostam de compartilhar os segredos do processo criativo. Esse livro, Dissecando Stephen King, é muito bom para quem escreve ou quer escrever.”
‘Quarto de despejo’, de Carolina Maria de Jesus
“Esse é um clássico, né? Para todos, mas especialmente para quem quer se aprofundar na literatura marginal. E tenho orgulho de ter um exemplar original da época que foi lançado.”
Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Foto: Reprodução/Pinterest
‘Pergunte ao pó’, de John Fante
“É muito interessante quando um autor te apresenta outro. Eu conheci o John Fante quando vi uma citação sobre ele num livro do Bukowski. E aí eu fui atrás.”
‘Capa preta’, de Lourenço Mutarelli
“Um cara que me inspirou muito também. Eu comprei um dos quadrinhos dele, Transubstanciação, quando ainda era adolescente, em uma banca de jornal. Eu já gostava de obras independentes e me apaixonei pelo trabalho do Mutarelli. Eu brinco que criei minha editora (Comix Zone) só para poder publicá-lo, como no caso de Capa Preta.”



