Colegas de trabalho e familiares destacaram a criatividade e a generosidade de Benedito Ruy Barbosa, que morreu aos 95 anos. Ele estava internado no Hospital do Coração, em São Paulo, por complicações de uma insuficiência renal. O escritor, que colocou as várias faces do Brasil na tela da televisão, foi lembrado por artistas e profissionais que conviveram com ele.
Legado de um grande autor
A atriz Regina Casé afirmou: “Eu acho que o último grande troféu que o Benedito recebeu foi ver a força que o ‘Pantanal’ ainda tinha depois de tantos anos”. Para Amauri Soares, diretor-executivo dos Estúdios Globo, as novelas de Bené eram mágicas: “As histórias do Benedito não envelhecem. Porque elas são as histórias da nossa formação como povo. Quando a gente fez o remake de ‘Pantanal’, quando a gente fez o remake de ‘Renascer’, a gente teve toda uma nova geração de brasileiros se conectando com essas histórias e assistindo junto com gerações de pais e avós que tinham se emocionado antes. É por isso que o Benedito é mágico como autor, porque as histórias dele são para sempre”.
Herança para a família
A paixão por novelas e a criatividade ficaram como herança para Bruno Luperi, neto do autor: “Eu acho que ele foi o percursor de um gênero. Ele inventou uma maneira de contar histórias. Ele lutou para colocar o Brasil na frente da tela, acho que para pontuar a dignidade do brasileiro. Eu acho que, talvez, um dos gestos mais autorais da obra dele é este: trazer dignidade para o povo brasileiro, enaltecer a nossa luta e sempre estar do lado certo da história”. Era um torcedor apaixonado. “São-paulino roxo, conselheiro vitalício do São Paulo. Olha, eu vou dizer para você, ele era mais são-paulino do que torcedor da Seleção”, afirmou Ruy Maurício Barbosa, filho de Benedito. As palavras brotavam fácil para ele. “Meu pai tinha uma coisa assim: a gente precisa escrever como se fala. Estou escrevendo sobre mineiros, então, ‘uai’”, contou Edilene Barbosa, filha do autor.
Momentos de despedida
Os quatro filhos se despedem do pai que não se trancava para escrever. Ao contrário, trabalhava nos roteiros sentado à mesa da copa. Os netos vão ter a lembrança do avô que fazia dormir contando histórias do Pantanal. E os bisnetos ainda vão ter a chance de conhecer intimamente o bisavô, porque Benedito Ruy Barbosa dizia que se colocou em cada personagem que criou.
Personagens marcantes
Tião Galinha, da novela “Renascer”, emocionava o autor e o ator. “Ele falava e chorávamos juntos. Quer dizer, ele se emocionava com a criação. Ele não era um pragmático, né? Quer dizer, ele era um artista criador”, disse o ator Osmar Prado. Cristiana Oliveira nunca deixou de ser também Juma depois da primeira versão de "Pantanal". “Ele me apresentou a Juma Marruá, mas me apresentou ao bioma Pantanal, que hoje eu sou ativista e defensora desse bioma. E todas as vezes que eu encontrei com ele, que não foram muitas, mas foram sempre muito emocionadas, sabe? Ele me chamava de Juma, minha Juma’”, lembrou a atriz Cristiana Oliveira.
Homenagens de elenco
Marcos Palmeira trabalhou nas duas versões da novela. Deixou uma homenagem gravada: “Um homem que conseguiu levar esse Brasil profundo para as telas, para o horário nobre, falar de problemas sociais, políticos de uma forma brilhante, sem ser panfletário. Benedito faz toda a diferença. É um dia muito triste realmente”. A vida de Almir Sater tem um antes e um depois de Trindade de “Pantanal”. “Um grande autor, me deu a chance de ser um violeiro fantástico naquela novela. E, a partir daí, minha vida iluminou. Rui, você está no meu coração. Que você seja recebido nos lugares de honra para os grandes. Muito obrigado por tudo”, disse o cantor e compositor Almir Sater. A interpretação do jovem Berdinazzi, em “O Rei do Gado” rendeu a Caco Ciocler o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte como ator revelação. “Ele apostava no amor, apostava no trabalho que dá amar alguém. É um grande cara”, afirmou o ator Caco Ciocler. Tony Ramos também se manifestou: “Ele olhava com o olhar de um brasileiro preocupado com o seu país. E saíram grandes obras, e eu aqui, dentro do local onde estou trabalhando, local onde trabalhei obras dele, só posso dizer: muito obrigado, Benedito. E meu respeito a sua obra, a sua pessoa, ao vigor da sua obra. Muito obrigado”.



