A Borgonha nunca foi tão diversa quando o tema são seus vinhos como nos tempos atuais. Se até um passado não muito distante, esta nobre região francesa era conhecida e valorizada por seus grandes tintos e brancos da Côte D'Or, que engloba as Côte de Nuits e de Beaune, agora a Borgonha procura mostrar que tem várias outras facetas. E elas estão prontas para serem descobertas entre os seus 32 mil hectares de vinhedos, que representam 4,3% da área total de vinhas francesas. Essas vinhas são cultivadas não apenas com a chardonnay, uva branca que corresponde a 57% de seus vinhedos, ou da pinot noir, com 34%, mas também com variedades como a aligoté ou a gamay.
Climats: o conceito que define a Borgonha
Mais do que isso, a região que traz o conceito de climat tão arraigado entre os seus produtores parece feliz em revelar esses seus outros segredos. Os climats, a propósito, são um conceito mais restrito do que o de terroir: são parcelas de vinhedos delimitadas e nomeadas, que trazem características próprias, não apenas de solo e de clima, mas também de história. Atualmente a Borgonha tem 1.247 climats, considerados Patrimônio da Humanidade pela Unesco. São segredos outrora esquecidos ou talvez encobertos pelo sucesso de seus rótulos mais conhecidos, dos quais o Domaine de La Romanée-Conti (DRC) é o mais famoso.
Aligoté: a uva branca que renasce
Um exemplo da nova diversidade está no entusiasmo de Pierre de Benoist com a uva branca aligoté. Adepto da filosofia biodinâmica, Benoist é o responsável pelos vinhos da Domaine Aubert & Pamela De Villaine, fundada por seus tios em Bouzeron, sub-região em que a aligoté é a variedade principal. Seu tio é Aubert de Villaine, co-proprietário da DRC, hoje aposentado. Ele conta que os tios compraram a propriedade porque queriam uma vinícola própria (a família divide a DRC com os Leroys) e não tinham verba para adquirir vinhedos na Côte D'Or. O casal se especializou no cultivo da aligoté, inclusive em entender a influência dos barris de carvalho na fermentação e no amadurecimento destes vinhos, que são importados pela Mistral.
A aligoté é uma das variedades brancas que vem ganhando destaque, principalmente por resultar em vinhos mais frescos e com um toque mineral. “Por muito tempo, a aligoté dava origem a vinhos de entrada, bem mais simples, mas isso mudou nestes tempos de variações climáticas”, afirma Nelly Blau, responsável pelo mercado internacional no BIVB, sigla do Bureau Interprofessionnel des Vins de Bourgogne. Não só o clima, mas o trabalho dos produtores para entender o seu terroir vem contribuindo para a sua maior qualidade. E, aqui, destaca-se o empenho de uma associação, a Les Aligoteurs, que reúne os produtores da variedade e que tem como símbolo um jacaré.
Côte Chalonnaise e Mâconnais: qualidade e preço
Outro exemplo desta diversidade está nas regiões mais ao sul da Borgonha. Sem a fama da Côte D'Or, as Côte Chalonnaise e Mâconnais se consolidaram como o destino para quem procura brancos e tintos de boa relação qualidade e preço. Mesmo sabendo que o conceito de qualidade e preço, ao menos na Borgonha, não é sinônimo de vinhos baratos, mas de brancos e tintos que têm muita qualidade e valores não tão altos como os da Côte D'Or.
A Domaine de Deux Roches é uma delas, com vinhedos em Saint-Véran, Pouilly-Fuissé e Mâcon-Villages. A proposta, explica Pierre-Alexis Terrier, é valorizar o frescor e a finesse de seus vinhos, cultivados de forma orgânica. Outra é a Domaine Montbarbon, em Viré, hoje propriedade de Jean-Jacques Feral, diversas vezes premiado como melhor enólogo jovem da região (as duas vinícolas não têm representantes no Brasil).
Novos capítulos de uma região histórica
São exemplos de projetos que mostram os novos capítulos desta região francesa. A Borgonha já foi um enorme oceano, o que explica os fósseis marinhos que aparecem em alguns vinhedos. Já foi também bastante estudada pelos monges durante a Idade Média, o que traz o conhecimento de seus terroirs e de seus climats ao longo dos séculos. Mas ainda traz boas surpresas para aqueles que se propõem a descobrir a sua diversidade.



