Risco climático redefine crédito e competitividade do agronegócio brasileiro
Risco climático redefine crédito e competitividade no agro

Risco climático redefine acesso a crédito e investimentos no agro

O risco climático já começa a mudar a forma como bancos, investidores e mercados avaliam o agronegócio brasileiro. Para especialistas, a capacidade de continuar produzindo diante de eventos extremos será cada vez mais determinante para acessar crédito, atrair investimentos e manter a competitividade internacional do setor. As declarações foram feitas durante o programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado, com participação de Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú, e Rodrigo Lima, sócio-diretor da Agroicone.

Crédito passa a olhar para o risco climático

Segundo Rodrigo Lima, os impactos das mudanças climáticas já entraram no radar de instituições financeiras e devem ganhar peso crescente nas decisões de financiamento ao setor. “A hora que eu, por exemplo, olhar o risco climático para te dar o crédito ou não, vai chegar uma hora que eu vou falar: ‘Não posso te dar o crédito’. Ou ele vai custar muito mais caro”, afirma. Na avaliação dele, o tema deixou de ser apenas ambiental e passou a representar um fator econômico para produtores e investidores.

Lima lembra que eventos climáticos extremos já afetam importantes regiões produtoras e que bancos tendem a utilizar cada vez mais ferramentas de avaliação de risco climático antes de liberar financiamentos. “Ninguém quer financiar um negócio que vai quebrar fatalmente, porque os dados estão mostrando que não dá mais, é inviável produzir naquela região”, explica. Para ele, esse movimento exigirá mudanças tanto na gestão das propriedades quanto na adoção de novas tecnologias e práticas agrícolas.

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Sustentabilidade deixa de ser custo

Na visão de Renata Piazzon, um dos principais desafios ainda é transformar a percepção de que sustentabilidade representa apenas aumento de custos para o produtor. “A gente ainda tem uma visão limitada de quais benefícios a sustentabilidade pode gerar”, afirma. De acordo com a executiva, a agenda precisa ser encarada como um investimento capaz de aumentar produtividade, fortalecer a resiliência das propriedades e ampliar o acesso a mercados e capital. “Enquanto a gente não conseguir transformar essa agenda de custo para uma agenda de benefício, não necessariamente no curto, mas no médio e longo prazo, vai ser muito difícil atrair a sustentabilidade de forma transversal”, acredita.

Ela acrescenta que investidores vêm incorporando critérios socioambientais às análises há vários anos, mas que o Brasil ainda precisa ampliar a oferta de projetos aptos a receber esses recursos.

Competitividade dependerá de tecnologia e transparência

Para Rodrigo Lima, a competitividade do agronegócio brasileiro dependerá cada vez mais da combinação entre tecnologia, inovação, rastreabilidade e transparência. O especialista afirma que o Brasil já construiu uma agropecuária altamente produtiva, mas agora precisa dar um novo salto para agregar valor às exportações e atender às exigências dos mercados internacionais. Entre os pontos prioritários, ele destaca o combate ao desmatamento ilegal e mecanismos que comprovem a conformidade ambiental das cadeias produtivas. Segundo Lima, cumprir esses requisitos não é apenas uma demanda regulatória, mas uma condição para manter acesso a mercados, investimentos e linhas de financiamento.

O desafio é garantir a produção no longo prazo

Os especialistas defendem que a agenda climática deve ser vista como uma estratégia para fortalecer o próprio agronegócio brasileiro. Para Renata Piazzon, preservar recursos naturais e aumentar a produtividade não são objetivos conflitantes. Ela lembra que, entre 2004 e 2012, o Brasil conseguiu reduzir em cerca de 80% o desmatamento ao mesmo tempo em que dobrou sua produção agropecuária, demonstrando que crescimento econômico e conservação ambiental podem caminhar juntos. Na avaliação dos convidados, o próximo ciclo de expansão do agro brasileiro dependerá menos da abertura de novas áreas e muito mais da capacidade de produzir melhor, incorporar inovação, fortalecer a resiliência climática e criar condições para atrair o capital necessário para financiar essa transformação.

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