Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Sorocaba (Uniso) revelou que a implantação de um protocolo rigoroso no Hospital Regional de Sorocaba “Dr. Adib Domingos Jatene” conseguiu reduzir em até 36,5% o uso de antibióticos fortes em pacientes internados. A medida não apenas gera economia aos cofres públicos, mas também é essencial no combate às chamadas “superbactérias”.
O trabalho, que acaba de ser publicado na revista científica internacional Antibiotics, editada pelo Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI), foi desenvolvido pela coordenadora do curso de Farmácia, Jéssica Cristina Bilizario Noguerol Andrade, e por seu orientador de doutorado, Fernando de Sá Del Fiol, pró-reitor de Graduação da Uniso.
A resistência bacteriana
O estudo, intitulado “Impacto de um Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos no Consumo de Antibióticos, na Suscetibilidade Bacteriana e nos Custos em um Hospital Público de Alta Complexidade”, aborda um problema que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera uma das maiores ameaças à saúde pública global: a resistência bacteriana aos antibióticos e o uso indiscriminado desses medicamentos.
Segundo Jéssica, a resistência ocorre quando as bactérias deixam de responder aos antibióticos utilizados no tratamento de infecções. Com isso, doenças que antes eram facilmente tratadas passam a representar risco à vida, especialmente para pacientes internados em hospitais e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
A pesquisa avaliou a implantação do Protocolo de Gerenciamento de Uso de Antibióticos (PGA) no Hospital Regional de Sorocaba, uma unidade de alta complexidade. De acordo com a pesquisadora, o protocolo pode servir de modelo para hospitais públicos e privados. A estratégia é recomendada pela OMS e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que disponibiliza diretrizes para sua implementação.
O que foi analisado
A tese analisou o consumo de antibióticos e os custos diretos relacionados entre 2019 e 2023, utilizando dados retrospectivos de pacientes internados na UTI adulto, com base na métrica de Doses Diárias Definidas (DDD) por mil pacientes por dia. Os resultados apontaram redução no consumo de antibióticos considerados críticos, como:
- Vancomicina (36,5%): usado no tratamento de infecções bacterianas graves;
- Ceftriaxona (35,7%): antibiótico injetável indicado para diversas infecções;
- Meropenem (26,5%): utilizado em infecções severas antes da identificação exata do microrganismo causador;
- Piperacilina com tazobactam (21,3%): indicado para o tratamento de infecções sistêmicas e locais complexas.
“Eu quis fazer a avaliação antes da implementação e, após a implementação, avaliar o programa para ver os benefícios que ele trouxe. E foi muito rico, o trabalho conseguiu mostrar a diminuição da resistência bacteriana, a redução do uso de antibióticos e, com isso, também uma economia anual de R$ 948 mil por ano para o hospital”, iniciou Jéssica. “O estudo concluiu que a implementação do PGA foi efetiva para promover o uso racional de antimicrobianos, reduzir o consumo de antibióticos de amplo espectro e gerar economia para o sistema de saúde”, completou a professora.
A resistência bacteriana é considerada uma preocupação crescente em todo o mundo e já afeta significativamente os hospitais brasileiros. Segundo Jéssica, o problema ultrapassa o ambiente hospitalar, já que bactérias resistentes podem circular entre pacientes, familiares e profissionais da saúde. O estudo mostrou que o uso racional de antibióticos pode reduzir a pressão seletiva sobre as bactérias e contribuir para a melhora gradual do perfil de sensibilidade microbiana nos hospitais.
Fernando Del Fiol destacou que programas de gerenciamento de antibióticos não são novidade no Brasil, mas ressaltou a importância de demonstrar resultados concretos a partir de um hospital público da região. Para Jéssica, ainda são necessários investimentos em estrutura, capacitação contínua das equipes e fortalecimento da cultura do uso racional de antimicrobianos para que iniciativas como essa se transformem em políticas públicas mais amplas no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A resistência antimicrobiana já é considerada uma das maiores ameaças à saúde pública mundial. Transformar essas iniciativas em políticas públicas significa investir no futuro da assistência hospitalar e preservar a eficácia dos antibióticos para as próximas gerações”, concluiu.



