Mosquito da dengue pode aprender a ignorar repelente, aponta estudo francês
Mosquito da dengue pode ignorar repelente, diz estudo

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, em parceria com o Instituto Pasteur, comprovaram que o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, pode aprender a ignorar repelentes como o DEET, associando a substância a experiências positivas, como a alimentação. O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, utilizou um protocolo clássico de psicologia experimental para condicionar os insetos.

Como o mosquito aprende a ignorar o repelente

Os cientistas aplicaram um método de condicionamento invertido: primeiro expuseram os mosquitos ao DEET e, em seguida, ofereceram sangue. Após repetidas sessões, os insetos passaram a associar o odor do repelente à recompensa alimentar, reduzindo sua aversão inicial. Em testes comportamentais, os mosquitos condicionados pousaram em superfícies tratadas com DEET com frequência significativamente maior do que os não condicionados.

“Observamos que os mosquitos alteram sua percepção em relação ao repelente após se alimentarem, indicando processos de aprendizagem cognitiva”, explicou a pesquisadora principal, Dr.ª Marie Lefèvre, do Instituto Pasteur. “Isso não significa que o DEET perdeu a eficácia, mas que em certos contextos os mosquitos podem superar a repulsa.”

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Implicações para o controle da dengue

Apesar da descoberta, os pesquisadores ressaltam que o DEET continua sendo a principal defesa contra doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, como dengue, zika e chikungunya. O estudo não indica que os mosquitos desenvolvam resistência genética ao repelente, mas sim uma adaptação comportamental temporária.

“Precisamos considerar que o uso repetido de repelentes em áreas endêmicas pode levar a uma redução da eficácia a curto prazo, mas ainda assim o DEET é altamente confiável”, afirmou o Dr. João Silva, infectologista da Fiocruz, que não participou do estudo. “A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novas estratégias, como repelentes que ativem múltiplos receptores sensoriais.”

Próximos passos da pesquisa

A equipe francesa planeja investigar se outros repelentes comuns, como icaridina e IR3535, também podem ser alvo de aprendizado pelos mosquitos. Além disso, estudos de campo estão sendo desenhados para avaliar o impacto real desse comportamento em áreas endêmicas. O trabalho reforça a importância de combinar repelentes com outras medidas de controle, como telas, inseticidas e eliminação de criadouros.

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