O Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) acusou o Brasil de impor restrições a empresas de tecnologia estrangeiras, argumentando que políticas públicas como o Pix favorecem companhias nacionais de pagamento eletrônico. O órgão também apontou supostas falhas brasileiras no combate à corrupção, pirataria e desmatamento ilegal, propondo uma nova tarifa sobre as exportações do Brasil para os EUA, que pode chegar a 37,5%.
Decisão unilateral e soberania ameaçada
Simultaneamente, Washington classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, embora o Brasil os considere organizações criminosas. Para o governo brasileiro, esses temas competem exclusivamente à jurisdição nacional, e a interferência estrangeira é inaceitável.
Meses atrás, Trump impôs pesadas barreiras tarifárias a diversos parceiros comerciais. Na ocasião, o Brasil conseguiu mitigar impactos graças ao esforço conjunto entre governo e setor privado. Agora, a Casa Branca utiliza a política tarifária como ferramenta de negociação, mas os EUA acumulam superávit comercial histórico com o Brasil, o que esvazia a justificativa econômica para novos gravames.
Contraponto institucional nos EUA
A Suprema Corte dos Estados Unidos, por 6 votos a 3, sinalizou que o Executivo não possui poderes irrestritos para impor tarifas dessa magnitude sem autorização do Congresso. Essa decisão interna americana reforça a posição brasileira contra a unilateralidade.
O secretário de Estado, Marco Rubio, acusou o Brasil de não estar “alinhado” com Washington, equiparando a postura diplomática brasileira à de Venezuela, Cuba e Nicarágua. Se implementadas, as sobretaxas atingirão parcela expressiva das exportações brasileiras. Embora a legislação americana preveja prazos para manifestação dos setores afetados e audiências públicas, o dano político já foi causado.
Dignidade soberana e divergência respeitosa
O ponto central é a dignidade soberana do Brasil, ferida quando o país foi rotulado como “não amistoso”. Essa declaração demonstra desconhecimento histórico sobre a evolução das relações bilaterais e ignora a solidariedade brasileira em momentos cruciais, como a participação na Segunda Guerra Mundial.
Uma coisa é solidariedade; outra, submissão. O tempo em que um ministro brasileiro disse “Tudo o que é bom para os EUA é bom para o Brasil” já passou. Os países compartilham regime político e valores democráticos, mas divergências pontuais não devem azedar a relação. O Brasil admira a cultura americana, mas não se curva automaticamente aos interesses de Washington.
Brasil no mundo multipolar
No mundo multipolar contemporâneo, o Brasil não pode se curvar passivamente a superpotências. Cabe ao país traçar políticas próprias que protejam sua sociedade e economia. O governo americano mantém a América Latina sob sua esfera de influência, mas a realidade exige reciprocidade. O Brasil, apesar dos desafios internos, possui potencial extraordinário: é potência agroindustrial, tem matriz energética limpa e diversificada, e detém grandes reservas de terras raras, estratégicas para o futuro tecnológico global.
Sem arrogância, o Brasil precisa fixar posição firme: defenderá a soberania, ciente de seu potencial. É uma nação soberana, dona de um futuro fantástico a ser explorado por suas próprias mãos, livre de submissões automáticas. O respeito e a amizade pelos americanos permanecem, desde que baseados no respeito mútuo.



