O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) como "a maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental" em um documento divulgado na quarta-feira, 1º de novembro. A facção brasileira, segundo o governo americano, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão, representando uma ameaça real e crescente à segurança nacional dos EUA.
Expansão global e lavagem de dinheiro
De acordo com o comunicado do Tesouro, o PCC explorava o sistema financeiro dos EUA para lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas. A facção atua em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e contrabando de dinheiro em espécie, configurando uma ameaça à segurança nacional. O documento ressalta que o PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental, com operações que se estendem por diversos continentes.
Fundação e primeiros anos
O PCC surgiu na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, no Vale do Paraíba, conhecida como “Piranhão”, um local de condições precárias e brigas frequentes. O Massacre do Carandiru, em 1992, que resultou na morte de 111 presos, aumentou a tensão no presídio. Em 31 de agosto de 1993, durante um campeonato de futebol, oito detentos emboscaram dois presos rivais, Baiano Severo e Garcia, em uma quadra. A ação, liderada por Geleião e Cesinha, marcou a fundação do Primeiro Comando da Capital.
Reestruturação sob Marcola
Com a ascensão de Marcola, o PCC adotou um modelo de “irmandades secretas”, com regras mais estruturadas e proibições para novos membros, além de benefícios e proteção aos presos. Essa fase consolidou a facção como a principal força do narcotráfico no Brasil. O foco passou a ser a expansão internacional, impulsionada por condenações de lideranças e transferências para presídios federais, além do uso de celulares para comunicação.
Conflitos internos e novas lideranças
Nos últimos anos, autoridades têm buscado sufocar financeiramente a organização. Lideranças como André do Rap, Fuminho e Cabelo Duro ganharam destaque na Baixada Santista. Em 2018, Gegê do Mangue, uma das principais lideranças do PCC nas ruas, suspeitou da atuação do trio e proibiu o uso da estrutura da facção para fins particulares. Gegê foi assassinado a tiros em uma emboscada em Aquiraz, no Ceará. Uma semana depois, Cabelo Duro foi morto, apontado como assassino a mando de Fuminho. O crime abalou a organização, pois Gegê era “irmão” batizado, e Fuminho não, o que exigiria aval da cúpula “Sintonia Final”.
Assassinatos de alto perfil
Em novembro de 2024, o delator do PCC Antônio Vinícius Lopes Gritzbach foi executado a tiros de fuzil no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Ele colaborava com o Ministério Público de SP em investigações contra o crime organizado. O ataque também matou o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais. As investigações revelaram envolvimento de policiais militares: o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins são apontados como atiradores, e o tenente Fernando Genauro da Silva como motorista. Presos preventivamente, eles podem pegar mínimo de 51 anos de prisão.
O PCC também é apontado como mandante do assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, chefiou a Polícia Civil paulista entre 2019 e 2022 e indiciou a cúpula do PCC em 2006. O crime foi ordenado pelo alto escalão da facção como vingança, segundo o MP.
Presença internacional
Conforme reportagem do Estadão de junho de 2025, o PCC tem mais de 2 mil “soldados” em pelo menos 28 países. Na Europa, Portugal concentra 87 membros, seguido por Espanha (26), França (11), Holanda, Irlanda e Itália (3 cada), Bélgica, Inglaterra e Suíça (2 cada), e Alemanha, Sérvia e Turquia (1 cada). Na América do Sul, o Paraguai tem 699 integrantes, a Venezuela 656 e a Bolívia 146, segundo levantamento do MP-SP de final de 2023.



