Executivo da Fast Shop detalha esquema de propina a fiscais de SP
Fast Shop: executivo detalha propina a fiscais de SP

O executivo Julio Atsushi Kakumoto, acionista da rede Fast Shop, relatou ao Ministério Público de São Paulo detalhes de um esquema de extorsão envolvendo auditores fiscais da Fazenda e Planejamento do Estado. Segundo ele, por volta de 2019, representantes da empresa, especialmente o diretor Mário Otávio Gomes, passaram a ser extorquidos por auditores lotados no Posto Fiscal de Osasco (Grande São Paulo). O valor inicial da exigência era de R$ 15 milhões, mas depois saltou para R$ 17,2 milhões.

Codinomes e tabelas internas

Kakumoto citou os nomes de dois fiscais, identificados parcialmente como Clóvis e João Alberto. Em uma planilha de propinas, o primeiro era apontado como 'urubu' e o outro como 'urubuzão'. Ele mencionou um documento intitulado 'tabelas internas' de pagamentos, que fazia referência a um 'projeto U' ou 'Volta ao Mundo'. De um terceiro auditor, o executivo apontou o nome completo: Daniel Bogdanovic Paganotti, então delegado regional de Osasco.

Extorsão só cessou com pagamento a 'King'

Segundo o empresário, as extorsões apenas cessaram quando os dirigentes da Fast Shop passaram a pagar propina para outro fiscal, Artur Gomes da Silva Neto, o 'King', então supervisor fiscal da Divisão de Fiscalização da Receita estadual. Artur é alvo principal da Operação Ícaro, que desmantelou um propinoduto de R$ 1 bilhão abastecido por pessoas jurídicas em troca da antecipação relâmpago de créditos tributários inflados.

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Acordo de Não Persecução Penal

Kakumoto fechou um Acordo de Não Persecução Penal com os promotores do Gedec, núcleo do Ministério Público que combate corrupção, delitos econômicos e lavagem de dinheiro. Pelo acordo, o acionista se comprometeu a implementar um Programa de Integridade, Controles Internos e Políticas Corporativas anticorrupção. Ele também contratou auditoria independente para apurar práticas passadas da Fast Shop, que revelou o esquema de extorsão.

Detalhes da corrupção

O empresário relatou que, em 2019, os auditores Clóvis e João Alberto 'abordaram os dirigentes da empresa, exigindo, de forma ameaçadora, o pagamento de propina para evitar que fizessem autuações contra a empresa em valores vultosos'. Logo após as ameaças, o advogado Carlos Vinícius de Araújo ofereceu ajuda, alegando ser próximo do chefe do Posto Fiscal de Osasco. Reuniões entre Kakumoto, o advogado e o delegado regional Daniel Bogdanovic Paganotti resultaram na exigência inicial de R$ 15 milhões.

Pagamentos em espécie e notas frias

Inicialmente, a propina era paga em espécie na sede da Fast Shop para os auditores Clóvis e João Alberto. Os valores destinados a Paganotti eram entregues em espécie por meio do advogado Carlos Vinícius. Diante da dificuldade de obter dinheiro em espécie, os pagamentos passaram a ser feitos por contratos simulados de honorários advocatícios com notas fiscais frias, elevando o valor para R$ 17,2 milhões devido aos tributos sobre os serviços fictícios.

Validação judicial

A 1.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital homologou o novo depoimento de Kakumoto, incorporando-o à confissão já realizada. O juízo considerou que 'as condições avençadas entre as partes não se revelam inadequadas, insuficientes ou abusivas, impondo-se a sua homologação'.

Defesa da Fast Shop

O advogado Renato de Mello Jorge Silveira, que representa Julio Kakumoto, declarou ao Estadão que 'a Fast Shop colabora com as investigações desde o seu início' e que a empresa 'tem aperfeiçoado sua governança e programas de conformidade de forma a reforçar seu compromisso com a ética empresarial'. Ele acrescentou que os acionistas firmaram Acordo de Não Persecução Penal que solucionou a questão penal relacionada aos fatos. 'A empresa participa ativamente da apuração dos tributos devidos e buscará a transação tributária e pagamento de todos os valores efetivamente devidos', disse o advogado.

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