Sistema financeiro: porteira perigosa e a fiscalização ausente
Sistema financeiro: porteira perigosa e fiscalização ausente

A operação da Polícia Federal que investiga suspeitas de irregularidades no Digimais chama a atenção por um detalhe inquietante: a semelhança das práticas investigadas com aquelas atribuídas ao Banco Master. Se os indícios se confirmarem, a pergunta é inevitável: onde estavam os mecanismos de fiscalização quando essas operações eram feitas? Afinal, balanços não são inflados da noite para o dia, nem problemas de solvência surgem de repente.

Falhas na supervisão e riscos coletivos

O Banco Central, auditores, conselhos e órgãos responsáveis pela supervisão do sistema financeiro existem justamente para identificar riscos antes que eles ameacem investidores e acabem transferindo prejuízos a terceiros. A sensação que fica é a de que o caso Master abriu uma porteira perigosa. Se instituições financeiras passam a acreditar que sempre haverá alguma rede de proteção capaz de absorver as consequências de sua imprudência, o risco deixa de ser privado e passa a ser coletivo.

Num país em que o cidadão já financia desperdícios, privilégios e ineficiências, é legítimo perguntar até quando continuará sendo também o fiador involuntário de aventuras financeiras que deveriam ter sido contidas muito antes. Se até o cidadão comum já identifica o padrão, por que os órgãos de fiscalização demoraram tanto a enxergá-lo?

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Gilmar Mendes e a atuação no STF

Gilmar Mendes não se constrange no Supremo Tribunal Federal (STF). Como decano de reconhecida capacidade intelectual e acadêmica, deveria ser exemplo na Corte. Mas Gilmar é único: na grosseria, na intimidação e, acima de tudo e de todos, na certeza do seu poder. Sua atitude, seu desempenho e seu embate com o ministro André Mendonça no desenrolar da operação do Banco Master são de fazer corar uma lagosta. Ninguém descreveu tão bem Gilmar como o ex-ministro Luís Roberto Barroso em sessão no STF. Uma cena inesquecível para quem a assistiu.

Polarização contamina instituições

As divergências públicas entre ministros do STF e as críticas abertas à condução da Corte só reforçam a impressão da sociedade de que a polarização contaminou até instituições que deveriam permanecer acima das disputas políticas. O fato não surpreende. O Brasil vive há anos sob um discurso que divide ricos e pobres, amigos e adversários, como se governar significasse escolher um lado da população contra o outro, e essa escolha está presente até nos discursos de Lula.

Quando o exemplo vem de cima, as consequências tendem a se espalhar. E, quando a divisão se transforma em método, até instituições que deveriam inspirar confiança acabam refletindo o ambiente de rivalidades, tudo o que o Brasil não precisa.

Democracia inacabada e desafios

A democracia brasileira é um patrimônio que precisa ser protegido. Mas a defesa das instituições democráticas também exige reflexão sobre como esse processo é conduzido. O relatório Democracia inabalada foi elaborado pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes sobre o 8 de Janeiro e a atuação de grupos classificados como extremistas. Mas o debate não deve se limitar à identificação de ameaças, e sim também aos critérios usados para defini-las.

A questão central é: uma democracia permanece plenamente democrática quando o enfrentamento aos seus adversários políticos utiliza uma linguagem que os coloca previamente como inimigos da própria democracia? Quando um documento institucional utiliza expressões como “movimento populista extremista digital” ou associa determinados grupos políticos a projetos antidemocráticos, surge uma discussão jurídica e política relevante: até onde vai a análise de fatos concretos e onde começa a interpretação ideológica dos fatos?

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Numa democracia consolidada, ideias devem ser enfrentadas com argumentos, provas e respeito ao devido processo legal. Classificar pessoas ou movimentos como ameaças democráticas exige critérios objetivos, transparência e garantia do amplo direito de defesa. A defesa da democracia não pode significar só combater quem a possa ameaçar. Ela também precisa preservar os princípios que dão sentido ao próprio regime democrático: pluralismo, liberdade de expressão, imparcialidade e limites ao poder. Talvez o desafio brasileiro não seja afirmar que vivemos uma democracia inabalada, mas reconhecer que ainda construímos uma democracia plenamente consolidada.

Outros temas em destaque

O leitor Maurílio Polizello Junior, de Ribeirão Preto, comenta sobre o caso Vorcaro: “Deboche. Vorcaro debocha da Justiça brasileira. Ajudado por muita gente (Estadão, 23/6). Só existe uma solução para o caso: prisão por tempo indeterminado. Engaiolado, certamente o canarinho, acostumado ao conforto e demais mordomias que sua enorme fortuna, obtida de forma ilícita, lhe proporcionou, começará a cantar tudo o que é necessário para uma justa condenação. E quem o ajuda, blindando ou sendo conivente com suas maracutaias, deve ter o mesmo destino.”

Vital Romaneli Penha, de Jacareí, analisa a saída de Jaques Wagner: “A saída do senador Jaques Wagner (PT-BA) do cargo de líder do governo no Senado usa um eufemismo muito comum no futebol. Quando um técnico é demitido de um clube, emite-se uma nota oficial dizendo que ‘foi de comum acordo’. Aconteceu o mesmo com o senador.”

Luciana Lins, de Campinas, aborda o roubo de celulares: “É espantoso que um governo reconheça a existência de cerca de 3 milhões de celulares oriundos de crimes em circulação e somente agora anuncie uma medida de maior alcance. Às vésperas das eleições, a iniciativa inevitavelmente desperta dúvidas sobre seu caráter preventivo ou meramente populista. A recuperação de aparelhos é positiva, mas está longe de resolver o problema. O combate ao roubo de celulares exige enfrentar toda a cadeia criminosa: quem rouba, quem recepta e quem financia esse mercado. Enquanto houver compradores para produtos de origem ilícita, o crime continuará altamente lucrativo. Também chama a atenção que as autoridades conheçam as principais rotas de escoamento desses aparelhos, inclusive para o exterior, sem que a população perceba resultados proporcionais no desmantelamento dessas organizações. A impressão é de que o Brasil continua tratando as consequências, enquanto as causas permanecem praticamente intactas. O País segue enxugando gelo. Sem combater o crime organizado com inteligência, integração entre os órgãos de segurança e punição efetiva aos receptadores, continuará prevalecendo a sensação de impunidade. O crime agradece, e a impunidade permanece.”

Roberto Solano, do Rio de Janeiro, comenta sobre Lula: “Lula mandou o recado para os jovens: ‘O político honesto que vocês querem está dentro de vocês. Não está dentro de mim.’ Recado dado. Vota nele quem não quer honestidade.”

Luiz Felipe Schittini, do Rio de Janeiro, analisa as eleições de 2026: “Enquanto a esquerda está toda coesa em torno de um só nome para as eleições majoritárias de outubro, alguns integrantes da direita se digladiam, provocando uma autossabotagem. Deveriam ler O Príncipe, de Maquiavel, que prega: dividir para enfraquecer.”

Alvaro Augusto Fonseca de Arruda, de São Paulo, critica o Judiciário: “A propósito do artigo intitulado Vergonha internacional, no qual é abordada a degeneração da Justiça brasileira (Estadão, 24/6, A6), a Justiça italiana deu uma aula de princípios básicos de Direito ao ‘inquisidor-mor do Supremo Tribunal Federal’. É uma tristeza ver a degeneração da Justiça brasileira, como bem expõe o indigitado artigo.”

Luiz Frid, de São Paulo, comenta sobre política externa: “Nunca poderia imaginar que os Estados Unidos, digo, Donald Trump, passasse tamanha vergonha ao se curvar ao Irã, um país que tem um governo regido por uma ditadura teocrática e que considera os Estados Unidos o ‘Grande Satã’. Enganos eleitorais levam a estes resultados.”

Desempenho da Seleção Brasileira na Copa

Paulo Panossian, de São Carlos, celebra a classificação: “Encerrando a fase inicial da Copa, o Brasil se classificou em primeiro lugar no seu grupo, com 7 pontos, ao vencer de forma impecável a Escócia por 3 a 0. Fazendo um jogo cadenciado e bem ritmado, a equipe de Carlo Ancelotti fez sua melhor partida na competição. Vinicius marcou dois gols, chegando ao quarto na competição, e Matheus Cunha fez um gol, seu terceiro nesta Copa. Já a defesa e o meio de campo deram pouco espaço aos jogadores da Escócia. Na próxima fase, a de mata-mata, a nossa seleção joga na segunda-feira, dia 29, às 14h, em Houston, nos EUA. Também merece nota alta o técnico italiano Ancelotti, que, nas três partidas disputadas nesta Copa, teve a grandeza de cantar o nosso Hino Nacional junto com os jogadores. Muito mérito também ao mister por ter ajustado e motivado a equipe, que cresce em desempenho a cada jogo. Vai, Brasil!”

Gilberto Pereira Tiriba, de Santos, destaca Vinicius Júnior: “Falar de seleção brasileira hoje é, inevitavelmente, falar de Vinicius Júnior. O garoto que deixou o Flamengo sob o peso de uma enorme desconfiança internacional não apenas deu a volta por cima, mas assumiu o protagonismo de um dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid. Com a transição da ‘era Neymar’ e as constantes ausências do camisa 10, o peso de liderar o ataque canarinho caiu naturalmente sobre seus ombros, alçando-o ao posto de principal referência técnica e midiática do nosso futebol. Essa ascensão não foi por acaso. Vini deixou de ser apenas um ponta veloz e habilidoso para se transformar em um jogador letal. Ele refinou sua finalização, aprendeu a ditar o ritmo dos contra-ataques e desenvolveu uma virtude rara: a de crescer nos momentos de maior pressão. Mais do que gols e dribles, o camisa 7 carrega consigo a resiliência de quem enfrenta o racismo de cabeça erguida, transformando a opressão em combustível para sua liderança. Diante disso, Vinicius Júnior transcendeu o campo: ele não é apenas o presente da seleção brasileira, mas o rosto, a voz e a maior esperança de dias gloriosos para o nosso futebol.”

J. S. Vogel Decol, de São Paulo, comenta a vitória: “Na vitória folgada por 3 a 0 contra a Escócia, com um gol erroneamente anulado, a seleção canarinho venceu, convenceu e encantou sua grande torcida com show de Vini Jr., como se espera da única pentacampeã mundial. Daqui por diante, aguenta, coração. Bora, Brasil!”

Arcangelo Sforcin Filho, de São Paulo, elogia o Hino Nacional: “Foi lindo demais ouvir os torcedores e jogadores cantando com louvor o nosso Hino Nacional. Pena que o País está sendo governado por pessoas que não vivem estritamente de seus ganhos oficiais. A corrupção é o que interessa; o resto não tem pressa.”

Afonso Gallo Casanova, de Rio Claro, analisa a tática: “A discussão sobre a pausa para hidratação nos jogos da Copa costuma se concentrar em fatores externos. Argumenta-se que a interrupção divide a partida em quatro tempos, atende a interesses financeiros e funciona como janela de exposição para a mídia, estendendo-se inclusive a confrontos disputados em locais de clima ameno. Toda essa análise serve para constatar o óbvio: o ritmo de jogo muda após a parada. No entanto, a verdadeira transformação no andamento das partidas decorre das escolhas táticas das comissões técnicas, um detalhe pouco abordado. O fim do tradicional chutão para frente alterou significativamente a dinâmica em campo. Ao insistir em trocar passes e cruzar bolas na frente da própria área, os times passaram a atuar mais tempo no campo de defesa sob forte pressão dos atacantes. Essa postura tem gerado interceptações frequentes e gols em zona de perigo, mostrando que a insistência em sair jogando por baixo impacta o placar muito mais do que o cronômetro.”

OAB da Medicina e outros temas

Willian Martins, de Guararema, defende a MP da Medicina: “A Medida Provisória (MP) editada pelo presidente da República e que, portanto, tem eficácia imediata, foi acertada, apesar das críticas vindas de entidades que representam os médicos. A exigência de nota mínima no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) é um avanço, sim, e dos mais consideráveis. Se, no Brasil, um advogado formado precisa, obrigatoriamente, passar no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para ter o direito de exercer a profissão, por qual razão os profissionais da Medicina deveriam ser isentos dessa mesma exigência? Os advogados, que merecem aplausos e devem ser reconhecidos, pois a profissão garante direitos e assegura o devido processo legal, são obrigados a ter nota mínima se quiserem exercer sua atividade. Médicos e médicas, que lidam com vidas, devem passar pelo mesmo processo, com a mesma exigência de qualidade e com fiscalização ativa dos órgãos do Estado. O que não é razoável é permitir que os cidadãos, independentemente do gênero e da classe social, sejam expostos aos riscos que uma má formação pode oferecer. O governo, neste caso, foi corajoso e correto.”

Jane Araújo, de Brasília, comenta sobre sertanismo: “Sertanismo – mais uma autêntica nota de R$ 3 (Estadão, 20/6, A4). Finalmente, um grande articulista como Bolívar Lamounier fala sobre o excesso de sertanismo na música, que já cansou e que desestimula a diversidade e a criatividade da música brasileira. Já passou da conta.”

Alexandre de Oliveira, de São Paulo, discute maioridade penal: “Gostaria de fazer um comentário sobre o artigo do jornalista Eugênio Bucci, publicado ontem, Eles sabem o que fazem (mas não sabem tudo) (Estadão, A6). Concordo que deva haver uma maior discussão sobre o tema da diminuição da maioridade penal, pois não basta somente diminuí-la sem que haja uma reestruturação do sistema prisional brasileiro voltada a realmente tentar ressocializar estes indivíduos. Creio que a Câmara dos Deputados deveria, em um primeiro momento, tentar mudar a Constituição para que se pudesse julgar um menor de 18 anos como adulto em crimes considerados hediondos. Isso já ajudaria bastante, pois sabemos que criminosos usam menores para praticar estes tipos de crimes ou simplesmente para se responsabilizarem por eles, pois sabem que eles ficarão presos por, no máximo, três anos na Fundação Casa. Se estes jovens tiverem consciência de que podem ser condenados como adultos, creio que vão pensar duas vezes antes de assumirem ou praticarem esses atos.”