Disputa entre Flávio e Michelle Bolsonaro pelo futuro do bolsonarismo
Flávio x Michelle: a guerra pelo legado de Bolsonaro

O que está em disputa entre Flávio e Michelle Bolsonaro é o futuro do bolsonarismo a partir de 2030. O movimento, que se define como defensor do 'puro sanguismo', viu a ex-primeira-dama reagir ao ser excluída do jogo sucessório. A direita brasileira vive o pós-Bolsonaro, e a escolha do primogênito Flávio como candidato do bolsonarismo — o 'cavalo puro-sangue' designado a encarnar o pai — é fruto da necessidade de a família Bolsonaro manter a hegemonia sobre esse patrimônio político.

O contexto da sucessão

Jair Bolsonaro está fora de combate, perseguido e injustiçado, segundo o discurso do clã. Flávio seria o sacrificado cuja matéria incorpora o pai, em uma conjuntura onde a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegendo o patrimônio político e a empresa familiar criada dentro da máquina do Estado. A partir desse território, dois projetos de poder se desenvolvem e se chocam, pensando em 2030. Nenhum deles é de Flávio, e ambos avançam à revelia dos interesses da candidatura lançada para 2026.

Reações e alianças

O ex-ministro Ricardo Salles saiu em defesa de Michelle, classificando a candidatura de Flávio como 'frágil'. O embate entre Michelle e Flávio já tem vários capítulos, e Eduardo Bolsonaro postou críticas a Michelle e elogios a Flávio após a crise familiar. Não há 'puros' nessa peleja patrimonial por liderança e controle. Eduardo também toca agenda própria, nociva às chances eleitorais do irmão, assim como Michelle faz contra o enteado.

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A lógica do bolsonarismo

A diferença está na forma da reação de Flávio, dura apenas para com a madrasta, expressão da natureza conspiracionista do bolsonarismo. Michelle não é Bolsonaro; o bolsonarismo é 'purosanguista'. Ela não tem sangue Bolsonaro, é forasteira, oportunista e, certamente, traidora quando faltar Jair. O pensamento bolsonarista se organiza assim: o bolsonarismo eduardista — que estará sempre mordendo para que Flávio possa encenar moderações — refere-se a Michelle com o nome de solteira. A existência política que lhe é permitida deriva da condição circunstancial de mulher do pai.

Antecedentes familiares

Não é novidade: Bolsonaro lançou o filho Carlos contra a mãe em disputa pela cadeira da família na Câmara do Rio, trono que a então ex-mulher pretendia conservar. Ela não era Bolsonaro, só autorizada a usar a franquia. Separada, não poderia querer a reeleição. Carlos a venceu, 'matou a própria mãe'. Os irmãos se unirão para vencer — matar — Michelle. Ela é uma ameaça sem precedentes ao que os filhos de Jair concebem como poder hereditário.

Autonomia de Michelle

Se todos ali chegaram aonde chegaram sendo beneficiários de transferências do patriarca, somente Michelle teria constituído persona pública com possibilidades de prosperar autonomamente. O roteiro do vídeo profissional que publicou é expressivo de alguém que tem existência individual. Michelle não precisa de Flávio hoje; Flávio precisa de Michelle já. A direita brasileira está sob a primeira etapa do pós-Bolsonaro, com o ex-presidente preso e doente, alijado da atividade política direta, fase em que se disputa também a prerrogativa de lhe ser porta-voz. O vale-tudo irá até onde o conflito chegar quando não houver mais Jair.

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