Direita e esquerda na universidade: irmãos siameses da polarização
Direita e esquerda na universidade: irmãos siameses

A rotina universitária foi tomada de assalto pelas incursões performáticas da direita. Seus vídeos, produzidos e editados para viralizar, mostram a deterioração dos espaços acadêmicos, posta na conta do proselitismo esquerdista. A câmera, contudo, é seletiva, ao enquadrar apenas as faculdades de filosofia, letras e educação, desconsiderando o restante das unidades institucionais. O registro de paredes pichadas e lixo acumulado, em contraste com professores e alunos perplexos diante da sanha denunciadora, compõe um quadro patético de rebaixamento político de ambas as partes.

Militantes de direita e esquerda: irmãos siameses

Longe de encarnarem opostos inconciliáveis, militantes de direita e de esquerda comportam-se como irmãos siameses; separados, morrem de inanição. Ambos defendem seus valores invocando leis. Uns combatem os males sociais com austeridade econômica e intransigência moral e legal; os outros, tendo abandonado a violência revolucionária, cortejam o aparato jurídico. Progressistas só acreditam na democracia se o eleito pertencer à sua bolha. Conservadores, por sua vez, trocariam facilmente as liberdades democráticas por uma ordem autoritária.

Universidade pública como palco da polarização

A universidade pública tornou-se, assim, o palco privilegiado da polarização que capturou o imaginário brasileiro. As greves funcionam como psicodrama coletivo, uma catarse para estudantes expiarem suas culpas e privilégios de classe, vivendo fantasias de heroísmo. Trata-se de uma esquerda que vocaliza direitos, mas ignora o dever elementar de justificar o investimento estatal com rigor intelectual e respeito às regras institucionais. Na outra ponta, não há uma direita universitária orgânica. Os adeptos da visão liberal recuam para o conforto das bolhas digitais, escudando-se no pânico do “cancelamento” para evitar o embate público.

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Assimetria entre humanidades e exatas

Fossem esses populistas digitais aos prédios das engenharias, laboratórios de exatas ou hospitais universitários, a narrativa ruiria. Enquanto vigora uma imitação canhestra da miséria social nos institutos de humanidades, os espaços de ciência e tecnologia equiparam-se a condomínios privados, ostentando controle de acesso e limpeza adequada às áreas comuns, a despeito do mau gosto arquitetônico e de certo desconforto térmico.

O cinismo comum atribui esse zelo apenas à assimetria orçamentária. De fato, enquanto o padrão estrutural das humanidades flerta com a indigência, o das exatas e biológicas dialoga com expectativas corporativas. Contudo, impõe-se uma diferença marcante no ethos acadêmico. É impensável que um hospital universitário tolere pichações em suas dependências ou que um laboratório de química renuncie a certos protocolos de conservação e manutenção de equipamentos, sob pena de inviabilizar a própria atividade científica.

Desleixo como reserva moral e a burocracia estatal

O conservador suspira aliviado diante dessa assimetria. Afinal, o que fariam as humanidades com cifras mais polpudas, se frequentemente gerem mal a própria escassez? Esse raciocínio, porém, ignora um duplo mecanismo. Por um lado, o desleixo físico nas Humanas opera, na retórica militante, como uma solidariedade estética com os despossuídos – uma “reserva moral” e um suposto atestado de liberdade intelectual. Por outro, negligencia-se a máquina estatal: a precariedade não decorre apenas da gestão ideologizada, mas da lentidão burocrática e de leis de licitação que, sob a justificativa de evitar a corrupção, forçam os entes públicos a contratar os piores produtos e serviços do mercado. Não bastassem a imitação da miséria e os paradoxos gerados pelos aparatos jurídicos, assiste-se à ausência de uma política de Estado para o ensino superior.

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Inimigos imaginários e a crise permanente

Se os prédios de Humanas são reduzidos a uma cracolândia cenográfica, convém ressaltar que o quadro não reflete os valores da esmagadora maioria da comunidade universitária. A instituição não está ameaçada por uma horda reacionária ou por uma guerrilha identitária; sua crise permanente alimenta-se, na verdade, da fabricação de inimigos imaginários. O primeiro seria o reitor, transformado em alvo por grupos que quebram o pacto acadêmico para encenar lutas políticas – fazendo da greve, hoje anacrônica, uma neurose restrita a nichos estudantis e sindicais. O segundo espantalho é o governador, que deveria usar seu capital político para blindar os recursos do que um dia já foi a joia da coroa: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Identidade de ONG e militância fisiológica

O resultado desse delírio persecutório reflete-se na própria identidade da instituição. A imagem que a universidade hoje projeta de si assemelha-se mais à de uma ONG ou de um sindicato do que à de uma comunidade dedicada à busca da verdade científica. Gestores perceberam que a manutenção do poder exige o endosso às pautas fantasiosas de suas bases. Quando um grupo captura sucessivas reitorias ancoradas no voto estudantil, o desfecho é o loteamento administrativo por cabos eleitorais – um casamento perfeito entre militância e fisiologismo. É legítimo que os setores acadêmicos disputem fatias do orçamento; a distorção ocorre quando essa disputa abandona a atividade-fim da instituição, tratando a universidade pública como se sua missão primordial fosse a redenção dos excluídos e a empatia simbólica com os marginalizados – desde que, é claro, o contracheque dos servidores esteja garantido.