O paranaense Marcelo Andrade, de 37 anos, viajou para a guerra na Ucrânia acreditando que atuaria como médico de combate, prestando socorro a soldados feridos. No entanto, poucas semanas após sua chegada ao país, foi realocado para a infantaria e acabou em uma das áreas mais perigosas do conflito. Ex-bombeiro da Defesa Civil do Paraná, ele passou cerca de 20 dias em um bunker improvisado próximo à linha de frente, onde enfrentou falta de água, escassez de comida e testemunhou a morte de colegas em ataques de drones.
Em vídeo enviado ao g1, Marcelo mostra o interior do bunker onde permaneceu durante parte da missão. "Eu vim para trabalhar na área médica, mas acabei caindo na infantaria", relatou.
Mudança de planos
Segundo Marcelo, a mudança ocorreu logo após sua chegada à Ucrânia. Cerca de três semanas depois do treinamento, ele foi enviado para a região de Zaporíjia, uma das áreas mais próximas das posições russas. "A minha primeira missão foi de infantaria. Foram 20 dias num bunker. Eu caí na linha zero, porque depois de nós era só os russos. A gente caiu na pior linha que tem hoje de combate", contou.
O combatente afirma que estava ciente dos riscos ao se voluntariar para a guerra, mas não esperava ser enviado diretamente para a infantaria. "Eu estava ciente dos riscos da guerra, mas não que eu cairia na infantaria. Infelizmente, vim para atuar como médico de combate e, no final das contas, caí na defesa territorial", declarou.
Condições extremas
Durante o período na linha de frente, Marcelo enfrentou escassez de água e alimentos, além de ataques frequentes de drones. Ele perdeu cerca de 10 quilos durante a missão. "Passei cerca de 20 dias na posição. Passei três dias sem água e perdi 10 quilos nesse período", disse.
Marcelo descreve os bunkers utilizados pelos soldados como estruturas precárias, construídas pelos próprios combatentes. "É basicamente um buraco no chão. Muitas vezes nós mesmos construímos, cobrindo com madeira, lona e terra. Não há luz nem conforto", relatou. No vídeo, ele aparece mostrando um espaço escavado no solo, coberto por lonas e materiais de proteção. No local, Marcelo e outros combatentes aquecem água da chuva misturada com chocolate para se alimentar. Segundo ele, os soldados passam a maior parte do tempo escondidos nos bunkers e só saem quando estritamente necessário.
Ameaça dos drones
Marcelo afirma que os drones representam hoje a principal ameaça para quem está na linha de frente. "Eles são responsáveis pela maior parte das mortes na linha de frente", afirmou. Ele relata ter presenciado a morte de vários colegas durante ataques aéreos. Em um dos episódios, um grupo de soldados foi localizado pouco antes de chegar a uma posição segura. "Meus amigos estavam a cerca de 100 metros da posição quando foram encontrados. Em seguida, vários drones atacaram e todos morreram", contou.
Segundo Marcelo, metade dos combatentes que fizeram treinamento com ele morreu durante o conflito. Ele afirma ainda que muitos estrangeiros chegam à Ucrânia sem preparo adequado para a guerra. "No meu grupo tinha um menino de 19 anos. Infelizmente ele morreu em combate. Muitos escondem da família que vão vir para cá. Muitos morrem sem a família saber", afirmou.
Planos de retorno
Apesar das dificuldades, Marcelo diz não se arrepender da decisão de participar da guerra. Contudo, seu contrato tem duração mínima de seis meses e ele afirma que pretende retornar ao Brasil após esse período. "Não me arrependo. Tomei essa decisão consciente dos riscos. Mas quero voltar para o Brasil assim que meu contrato terminar", declarou.
Atualmente, ele aguarda a possibilidade de ser transferido para uma unidade especializada em operações com drones, considerada menos exposta do que a infantaria. Enquanto isso, ele espera a próxima missão em um local chamado de "casa segura", com estrutura de uma casa, mas sem energia elétrica. "Tomamos banho quando possível e dependemos bastante de powerbanks para manter os equipamentos funcionando. Como estamos em uma pequena vila no interior, tem um senhor que nos deixa tomar banho quente na casa dele uma vez por semana", diz.
Alerta do Ministério
Em junho do ano passado, o Ministério das Relações Exteriores divulgou um alerta sobre o alistamento voluntário de brasileiros em forças armadas estrangeiras, no contexto de guerras armadas. Segundo o órgão, tem sido registrado aumento no número de casos de brasileiros que morrem em conflito ou que encontram dificuldades para interromper a participação no serviço militar. Por isso, o ministério recomendou que propostas de trabalho para fins militares sejam recusadas. De acordo com o órgão, a assistência consular, nesses casos, pode ser "severamente limitada pelos termos dos contratos assinados entre os voluntários e as forças armadas de outros países".
Contexto da guerra
A guerra na Ucrânia começou em fevereiro de 2022, quando o presidente russo Vladimir Putin autorizou uma ofensiva militar contra o território ucraniano. Desde então, o conflito provocou milhares de mortes, milhões de refugiados e intensos combates, especialmente no leste e sul do país. A Ucrânia conta com apoio militar, financeiro e humanitário de países como os Estados Unidos e a União Europeia. A Rússia, por outro lado, enfrenta sanções econômicas internacionais. Apesar das negociações em curso, não há perspectiva concreta de fim da guerra.



