A crise libanesa é frequentemente apresentada como mais um capítulo da disputa entre Israel, Estados Unidos e Irã. No entanto, essa narrativa, embora contenha elementos verdadeiros, deixa de lado aspectos essenciais para compreender como o país chegou à situação atual.
Contexto do conflito na fronteira
A presença militar israelense no sul do Líbano é muitas vezes retratada como fruto de uma política expansionista. Contudo, o atual conflito na fronteira israelo-libanesa recomeçou após os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, quando 1,2 mil pessoas foram mortas e 251 sequestradas. Pouco depois, o Hezbollah retomou ataques contra Israel em apoio ao grupo terrorista palestino. Durante meses, foguetes, drones e mísseis foram disparados contra Israel, forçando dezenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas. Sem esse contexto, a ação militar israelense aparece como causa do conflito, e não como consequência.
Hezbollah: um Estado paralelo
O Hezbollah tornou-se, ao longo das últimas décadas, um instrumento geopolítico do Irã e acabou por suplantar as forças regulares libanesas em diversas áreas. O próprio presidente do Líbano tem defendido o fortalecimento da soberania nacional e o fim das interferências externas que arrastam o país para conflitos recorrentes. A tragédia libanesa não decorre apenas da disputa entre potências regionais. Decorre também do fato de uma organização armada ter construído um Estado paralelo dentro do próprio Líbano, com capacidade de decidir, independentemente do governo eleito, quando haverá guerra e quando não.
Obstáculo à estabilidade regional
Essa realidade impõe outro obstáculo à estabilidade regional. A construção de acordos duradouros torna-se especialmente difícil quando o Hezbollah e seus patronos iranianos mantêm, há décadas, uma postura de rejeição à legitimidade do Estado de Israel e defendem sua eliminação. O regime iraniano prega há décadas a destruição de Israel, avança num programa nuclear que desperta preocupação internacional e financia grupos como Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Houthis e outras milícias. O regime e seus aliados também já estiveram associados a ações terroristas fora do Oriente Médio, como o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), na Argentina, que matou 85 pessoas em 1994.
Soberania libanesa negligenciada
Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a soberania libanesa. O Líbano é vítima das disputas entre potências regionais, mas também da captura parcial de suas instituições pelo Hezbollah, organização armada que responde ao Irã. Nenhum esforço de paz será duradouro enquanto essa realidade for tratada como secundária. Os Estados Unidos, inclusive, vêm promovendo há meses uma tentativa de acordo entre Israel e Líbano, com diplomatas dos dois países se reunindo em Washington, apesar da oposição do Hezbollah.
O povo libanês merece paz
O povo libanês merece mais do que servir de campo de batalha para conflitos alheios. Como afirma reiteradamente o presidente do país, os libaneses merecem voltar a viver sob um Estado capaz de exercer plenamente sua soberania. Mas ela é minada por aqueles que, em nome da “resistência” e do objetivo explícito de eliminar Israel, retiraram dos próprios libaneses o direito de escolher entre guerra e paz.



