A Copa do Mundo de 2026, que será realizada em 16 cidades de três países-sede (Estados Unidos, Canadá e México), está sendo chamada de “a maior Copa de todos os tempos” e também deve se tornar a mais poluente da história. De acordo com a pesquisa “Fifa’s Climate Blind Spot: The Men’s World Cup in a Warming World”, conduzida pela Scientists for Global Responsibility (SGR) em parceria com o Fundo de Defesa Ambiental, a Rede de Esporte para a Ação Climática e o Instituto Novo Tempo, o torneio deve gerar cerca de 9 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono.
Comparação com edições anteriores
O estudo revela que as emissões médias dos Mundiais de 2010 a 2022 eram de 4,71 milhões de toneladas. Assim, a edição de 2026 representa um aumento significativo, equivalente a 6,5 milhões de carros britânicos circulando por um ano. Os principais fatores para esse aumento são a expansão de 32 para 48 seleções e a decisão de realizar o torneio em três países-sede. Mesmo mantendo o número de equipes, a Copa de 2026 deve continuar sendo a mais poluente nas próximas edições.
Estimativas para 2030 e 2034
A pesquisa também projeta as emissões para as próximas Copas. A de 2030, que terá seis sedes, mas concentrará a maioria dos jogos na Espanha, deve gerar 6,09 milhões de toneladas. Já a de 2034, na Arábia Saudita, deve gerar 8,55 milhões de toneladas. Outro estudo, da plataforma de contabilização de carbono Greenly, estima emissões de 7,8 milhões de toneladas métricas de CO2 para 2026, valor próximo às emissões anuais de Serra Leoa.
Transporte aéreo como principal fonte
O transporte aéreo é o maior contribuinte para a pegada de carbono do evento. A pesquisa da SGR indica que o impacto do transporte aéreo deve ser de cerca de 7 milhões de toneladas nesta edição, ante uma média de 1,82 milhão de toneladas entre 2010 e 2022. Para as próximas Copas, a expectativa é que esse número fique em torno de 4,75 milhões de toneladas. David Gogishvili, pesquisador da Universidade de Lausanne, na Suíça, afirmou: “O transporte é um dos maiores contribuintes para a pegada de carbono de grandes eventos esportivos, especialmente quando espectadores, equipes, imprensa e dirigentes viajam longas distâncias e quando as cidades-sede estão geograficamente dispersas por um ou mais países.” Ele acrescentou: “Nas Copas do Mundo masculinas da Fifa, praticamente não existem alternativas viáveis de transporte sustentável para muitas viagens, tornando o transporte aéreo quase inevitável.”
Responsabilidade da Fifa
Especialistas em mudanças climáticas alertam para a responsabilidade da Fifa. Stuart Parkinson, da SGR e principal autor da pesquisa, declarou: “A Fifa precisa assumir a responsabilidade por seu papel crescente na crise climática. Com a crise climática se agravando rapidamente, a única resposta sensata é a Fifa tomar medidas imediatas para reduzir significativamente as emissões do torneio.” Samran Ali, do Fundo de Defesa Ambiental, complementou: “Do aumento das temperaturas às tempestades mais intensas, ele é sentido por comunidades que já enfrentam as consequências das mudanças climáticas. Para eventos dessa magnitude, a responsabilidade ambiental não pode ser deixada em segundo plano.” Ele propôs: “Precisamos de contabilidade transparente e cortes reais de emissões, apoiados por padrões vinculantes, limites confiáveis e parcerias que reflitam uma ambição climática séria.”
Compromisso da Fifa
A Fifa assumiu um compromisso com uma estratégia climática em novembro de 2021, durante a COP26, em Glasgow, na Escócia, com o objetivo de reduzir as emissões ao longo das duas décadas seguintes. O presidente da entidade, Gianni Infantino, afirmou na ocasião: “A Fifa desenvolveu uma estratégia abrangente e está empenhada em investir recursos substanciais que permitirão à Fifa e ao futebol alcançar os objetivos ambiciosos e necessários do Quadro de Ação Climática do Esporte da UNFCCC.” A estratégia tem quatro pilares: educar, adaptar regulamentos, reduzir emissões e investir na proteção climática.
Medidas de sustentabilidade
David Gogishvili reconhece que “algumas medidas de sustentabilidade podem ter efeitos positivos e não devem ser descartadas, como a melhoria da gestão de resíduos, o incentivo ao transporte público no entorno dos eventos, o aumento da eficiência energética ou a redução de construções temporárias.” No entanto, ele é cético: “Medidas de grande visibilidade, como copos reutilizáveis ou melhorias energéticas em estádios, podem ser úteis. No entanto, elas não compensam as emissões associadas à aviação internacional ou às necessidades de infraestrutura em larga escala.” Ele argumenta que uma Copa do Mundo realmente alinhada a metas climáticas deveria partir de limites ambientais, “em vez de presumir que o torneio pode continuar se expandindo e se tornando mais verde apenas por meio de medidas de eficiência.” Entre as recomendações, ele cita usar estádios já existentes, definir orçamentos claros de carbono e projetar o torneio para um espaço geográfico mais compacto, reduzindo a dependência do transporte aéreo.



