Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descreveram uma nova espécie de besouro, a Austrospirachtha carrijoi, que possui uma adaptação impressionante: uma expansão do abdômen que imita com detalhes a aparência de um cupim operário. A descoberta foi publicada em 2023 e revela uma das estratégias de mimetismo mais elaboradas já vistas entre besouros que vivem associados a cupins.
Um disfarce anatômico
O que à primeira vista parece ser um cupim montado nas costas do besouro é, na verdade, parte do próprio corpo do inseto. A estrutura abdominal reproduz aspectos da anatomia de um cupim operário, criando um disfarce para o besouro viver dentro da colônia. Segundo os cientistas, a principal hipótese é que essa adaptação permita ao besouro ser alimentado pelos cupins por meio da trofalaxia, processo em que os insetos trocam alimento boca a boca. No entanto, esse comportamento ainda não foi observado diretamente.
Estratégia além da visão
Embora o disfarce seja impressionante para os humanos, os cupins são praticamente cegos. Em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador Bruno Zilberman explicou: 'O bicho criou um fantoche de cupim no próprio abdômen e ele usa isso para se camuflar dentro do ninho dos cupins.' Durante a evolução, a parte membranosa do abdômen foi moldada até adquirir a forma de um cupim. Como os cupins reconhecem companheiros por estímulos táteis e químicos, a forma do corpo é apenas parte da estratégia.
Mimetismo químico e comportamental
Além da aparência, o besouro provavelmente reproduz sinais químicos e comportamentos dos cupins. O pesquisador Carlos Moreno destacou que esses insetos dependem do mimetismo químico, reproduzindo compostos que mascaram sua presença. O besouro também imita o comportamento dos cupins, formando um conjunto de adaptações que dificulta sua identificação como invasor.
Descoberta na Austrália
Os exemplares foram coletados em 2014 pelo entomólogo Tiago Carrijo durante uma expedição ao norte da Austrália. Enquanto coletava cupins para o Museu de Zoologia da USP (MZUSP), ele encontrou um ninho erodido de cerca de 20 cm com o que pareciam ser duas espécies diferentes de cupins. Em entrevista ao Terra da Gente, Carrijo afirmou: 'Apesar de eles conseguirem enganar os cupins, é importante lembrar que os cupins são cegos. Para nós, que enxergamos bem, não é muito difícil perceber a diferença entre o cupim e o besouro.'
Associação entre besouros e cupins
Esse tipo de associação não é raro. Existem outras espécies adaptadas, como as do gênero Thyreoxenus no Brasil. Em diversas espécies de besouros termitófilos, os cupins alimentam os besouros por trofalaxia estomodeal, com um líquido alimentar semidigerido e saliva. O aparelho bucal reduzido da nova espécie indica dependência dos cupins para se alimentar. Os autores propõem que a estrutura abdominal que imita um cupim funcione como estímulo para provocar esse comportamento, mas a hipótese ainda precisa ser confirmada por observações diretas.
Transformação pós-adulta
O besouro não nasce com esse formato. Após sair da pupa, ele passa por crescimento pós-imaginal, quando o abdômen se expande até adquirir a forma de cupim. Esse tipo de transformação ocorre em alguns besouros associados a insetos sociais, mas poucas espécies apresentam especialização tão extrema. Austrospirachtha carrijoi é apenas a segunda espécie conhecida do gênero; a anterior foi descrita há cerca de 50 anos. Até o momento, apenas fêmeas foram encontradas. A descoberta amplia o conhecimento sobre besouros termitófilos e mostra como a evolução pode produzir estratégias sofisticadas para viver em sociedades organizadas.



