Uma semana depois dos terremotos que atingiram a Venezuela, a presidente interina Delcy Rodríguez decretou luto de sete dias. A medida ocorre em meio a críticas sobre o despreparo do governo para lidar com os efeitos da catástrofe e a decisão de militarizar a região de La Guaira.
Militarização gera controvérsia
A presença ostensiva de forças de segurança nas áreas mais afetadas reflete o modus operandi do regime, dificultando a atuação de organizações humanitárias e intimidando o trabalho de jornalistas. O cerco militar acirra tensões com moradores envolvidos em resgates e preocupa um grupo de 40 ONGs defensoras de direitos humanos.
Em comunicado, as entidades exigem que as ações das forças militares sejam “proporcionais, transparentes e sujeitas a mecanismos de supervisão” e que o acesso de profissionais de saúde, jornalistas e organizações humanitárias seja garantido. O apelo parece não surtir efeito.
Relatos de abusos e descoordenação
Relatos de que militares e policiais se envolveram em roubos e saques ou se recusaram a ajudar nas buscas revoltaram os moradores. A ONG Provea, uma das mais respeitadas do país, detectou em visita a La Guaira um número excessivo de agentes armados de órgãos de inteligência do governo, que não têm autoridade legal para gestão de riscos e controle da ordem pública.
“Não observamos nenhum esforço ou iniciativa estatal para fornecer aos cidadãos serviços essenciais, como alimentos ou água potável. Pelo contrário, as ações das autoridades parecem priorizar o controle militar-policial do território, em detrimento de suas obrigações de atender ao sofrimento dos cidadãos”, constatou a ONG.
A Provea descreve ações descoordenadas e sobreposição de funções entre as forças de segurança em La Guaira: “Isso causa má gestão do tráfego de ambulâncias e profissionais de saúde e escassa proteção para os trabalhadores humanitários, que por vezes precisam assumir a responsabilidade de dirigir o trânsito em áreas congestionadas apenas para continuar seu trabalho.”
Governo justifica medidas
O governo liderado por Delcy Rodríguez invoca a militarização das áreas atingidas sob o pretexto de prevenir saques e reorganizar o trânsito, mas, como de costume, parece atuar para assegurar o controle da narrativa da catástrofe.
O líder do grupo socorrista Topos Chile, Francisco Lermanda, acusou militares venezuelanos de submeterem seus 46 voluntários a verificações excessivas, sob suspeita de serem espiões. Ele contou que um soldado entrou na área onde o grupo cavava um túnel sob os escombros apenas para exigir documentos dos socorristas — procedimento que já havia sido realizado.
“Existe uma paranoia sobre quem somos, por que estamos aqui. Eles não conseguem entender que somos voluntários de uma ONG, que viemos para cá com nossos próprios recursos”, resumiu Lermanda.



