Depois de quatro tentativas, Keiko Fujimori conquistou a presidência do Peru. Com uma margem de cerca de 50 mil votos sobre Roberto Sánchez, num universo de 18 milhões de votos válidos, a conservadora chega ao poder sem o tipo de mandato que permite proclamar uma nova era. O resultado encerra uma eleição, não as divisões que a tensionaram.
Desconfiança e herança autoritária
Muitos dos que votaram em Keiko seguem desconfiando dela. O sobrenome permanece associado ao autoritarismo, à corrupção e aos abusos do patriarca Alberto Fujimori nos anos 1990. Mas uma maioria estreita concluiu que a alternativa era um mal maior. Sánchez carregava a bandeira do leninista Pedro Castillo, o presidente deposto que defendia aventuras constituintes e despertava temores sobre o futuro das instituições e da economia. Os ataques de Castillo ao processo eleitoral que prometera respeitar só ajudaram a corroborar esse medo.
Exceção latino-americana
O Peru tem se provado uma estranha exceção latino-americana: uma política em colapso nervoso permanente convive com uma economia razoavelmente firme. Em dez anos, oito presidentes passaram pelo Palácio Pizarro, choques entre Executivo e Congresso viraram rotina e os partidos se fragmentaram. Mas a moeda seguiu sólida, o banco central manteve a credibilidade e a mineração continuou magnetizando investimentos.
Esgotamento do modelo
Esse arranjo improvável, porém, está à beira do esgotamento. Crime organizado, mineração ilegal, informalidade e baixa produtividade corroem seus alicerces. O Peru continua beneficiado por sua riqueza mineral e pelas oportunidades da transição energética. Transformar essas vantagens em prosperidade duradoura exigirá algo que o país não oferece há anos: governabilidade.
Lógica de confronto
O Peru passou a última década preso a uma lógica de confronto permanente, na qual presidentes, congressistas, juízes e procuradores se dedicaram mais a destruir-se uns aos outros do que a construir o país. À medida que as instituições eram dilapidadas, seus destroços eram convertidos em engrenagens para moer lideranças.
O desafio de Keiko
A nova presidente conhece bem essa lógica. Em momentos distintos, foi protagonista e vítima dela. A tentação de interpretar a vitória como acerto de contas seria compreensível. Também seria fatal. Os eleitores não lhe deram carta branca, apenas uma chance.
Pedaços do Peru ainda olham Lima com desconfiança. O sul andino votou em peso contra o fujimorismo. Ali se concentram carências crônicas, ressentimentos acumulados e a percepção de que os benefícios do crescimento chegam de forma desigual. Ignorar essa realidade seria contratar a próxima crise.
Construir uma herança própria
Por anos, Keiko tentou herdar o legado do pai. Agora, deveria estar mais preocupada em superá-lo. O Peru precisa de autoridade, mas sem autoritarismo. Precisa de segurança, mas com respeito aos limites legais. Precisa de reconciliação, não de vingança.
A nova presidente tem a chance de construir uma herança própria. Mas ela assume justo quando a separação entre economia funcional e política disfuncional está a ponto de colapsar. Se souber transformar uma vitória apertada em legitimidade duradoura, poderá apoiar-se na força da economia para reconstruir a política. Do contrário, o caos pode extrapolar os gabinetes de Lima e, pela primeira vez, arrastar consigo a economia.



