Vivemos uma mudança profunda na maneira como a sociedade se informa, que preocupa não pelos canais, mas por uma perigosa troca de confiança por conveniência. Cada vez mais pessoas preferem as redes sociais aos veículos jornalísticos. Sabemos que a imprensa tem seus pecados que a desconectam do público. Mas é preocupante que muita gente consuma notícias em ambientes onde influenciadores, algoritmos e sistemas de recomendação disputam atenção segundo lógicas diferentes das que orientam o jornalismo profissional, focadas apenas em engajamento.
Números do Digital News Report
O que antes era uma percepção agora foi colocado em números pelo Instituto Reuters no seu Digital News Report, publicado no dia 16. Pela primeira vez, mais pessoas se informaram pelas redes sociais que pela imprensa: 54% a 51%. E fizeram isso declaradamente por considerarem as plataformas digitais mais práticas e divertidas, ainda que as definam como pouco confiáveis.
Paralelo com 'Admirável Mundo Novo'
Essa aparente contradição me fez lembrar de 'Admirável Mundo Novo', clássico do britânico Aldous Huxley. Nessa distopia publicada em 1932, as pessoas não eram impedidas de conhecer a verdade: elas simplesmente deixavam de se interessar por ela. A estabilidade social não vinha de censura, e sim do entretenimento permanente, do condicionamento e do conformismo, que esvaziavam o interesse pela mesma verdade.
Quase um século depois, essa ideia parece surpreendentemente atual. Nossa sociedade não é a proposta por Huxley, mas em uma vida já estressante e cheia de problemas, a dureza da verdade pode parecer desinteressante e inconveniente. As pessoas querem escapar desse desconforto, não porque não gostem da verdade, mas porque agora é muito mais fácil encontrar interpretações que confirmem suas crenças e valores, especialmente quando elas tornam o mundo mais simples de suportar.
O papel dos algoritmos
As redes sociais entram em cena aí. Em meio a memes divertidos e entretenimento confortável, seus algoritmos privilegiam narrativas alinhadas às expectativas de cada um, mesmo que isso crie uma realidade distorcida. As câmaras de eco dessas plataformas reforçam narrativas falsas, que passam a ser propagadas e a servir de base para a vida.
De certa forma, nossa realidade traz uma tecnologia que Huxley não podia prever. Ao personalizar o acesso à realidade, os algoritmos e as inteligências artificiais não apenas distribuem informação, mas constroem uma versão diferente do mundo para cada indivíduo. A verdade continua existindo e está disponível, mas acaba soterrada pelo entretenimento. Basta as plataformas digitais decidirem que ela será a centésima ou a milésima recomendação.
Esse mecanismo torna-se particularmente poderoso, pois cada conteúdo distorcido complementa o anterior, criando uma narrativa coerente e confortável que reduz, pouco a pouco, o incentivo para confrontá-la com a realidade.
Impacto no jornalismo
Essa leitura de Huxley ajuda a compreender e a nos posicionar diante de uma ruptura histórica que se esgueira pelas frestas do Digital News Report 2026. As pessoas sabem que as plataformas são pouco confiáveis, mas, mesmo assim, as utilizam. A confiança cede espaço a uma certa 'experiência de uso noticiosa', que combina muito bem com uma sociedade que sente que cada vez mais pode tudo e cada vez menos tolera frustrações.
Diante disso, não é de se estranhar que o jornalismo perca espaço, porque a credibilidade que o norteia está sendo substituída pela hiperpersonalização e pelo entretenimento. Para resgatar o seu papel como mediador do debate público, não deve se preocupar com competir com as redes sociais, mas em provar que, em uma sociedade fascinada pela conveniência, a verdade continua valendo o esforço de procurá-la.



