Dubladora de Presidente Prudente brilha em séries, filmes e jogos nacionais
Dubladora de Presidente Prudente brilha no cenário nacional

Uma brincadeira de infância em frente à televisão transformou-se na profissão de Lia Mello, 33 anos. Natural de Presidente Prudente (SP) e atualmente radicada em São Paulo, ela já deu voz a personagens de séries, filmes e jogos que conquistaram milhares de fãs. Nesta segunda-feira (29), Dia do Dublador, a artista celebra mais um ano de carreira.

Da brincadeira à profissão

Em entrevista exclusiva ao g1, Lia contou que o interesse pela dublagem surgiu aos 10 anos. Ao lado de um primo, ela colocava a televisão no mudo e improvisava as falas. "Meu primo, fã de Chaves e dublagem, baixava vídeos e, com um software de edição, me colocava para dublar os personagens femininos; ele fazia os homens. As falas podiam ser originais ou improvisadas, por diversão. Essas brincadeiras me levaram à profissão atual", relatou.

Apesar de sempre sonhar em ser atriz, Lia nunca teve certeza do caminho. Fez teatro, participou de testes e encontrou na dublagem o espaço para construir a carreira. O início, porém, exigiu paciência. "Começar é muito difícil. Você não pega vários trabalhos de uma vez. Se pegar um por semana, já está no lucro. Para quem tem emprego CLT, é difícil pegar escalas, pois os estúdios preferem agendas flexíveis. Também é desafiador fazer as pessoas lembrarem do seu rosto e da sua voz", explicou.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Estabilidade e primeiros passos

A estabilidade veio aos poucos. Primeiro, trabalhou como tradutora freelancer para um estúdio, mantendo um emprego com carteira assinada. Quando passou a receber escalas diárias, decidiu apostar na profissão. "Ela me proporcionou independência e a possibilidade de morar na cidade que sempre quis, além de viver o sonho de ser artista", afirmou.

O processo de dublagem

O trabalho do dublador vai além de "emprestar a voz": envolve interpretação, sincronização e emoção. Antes da gravação, um diretor escolhe os profissionais. Em alguns casos, há testes. No estúdio, o dublador recebe orientações sobre a história e grava apenas as cenas de sua personagem. Para Lia, o maior desafio é a interpretação simultânea. "O mais difícil é fazer tudo ao mesmo tempo", brincou. "A tríade é o que faz uma dublagem de qualidade e deixa o filme natural, a ponto de não parecer dublado." O tempo de conclusão varia: alguns filmes são finalizados em dias; produções com muitos diálogos podem levar semanas.

Personagens marcantes

Ao longo de 11 anos de profissão, Lia participou de diversas produções. Entre as personagens especiais estão: Enid, da série The Walking Dead; Qiyana, do jogo League of Legends (LoL); Kiriko, de Overwatch; e Sara Campbell, protagonista de Todo Mundo em Pânico 6. Conquistar a primeira protagonista nos cinemas depois de mais de uma década reforça a necessidade de persistência. "Mesmo após 11 anos, só agora consegui minha primeira protagonista nas telonas", comentou.

Lia guarda lembranças curiosas dos bastidores. Em uma gravação de The Walking Dead, um morcego apareceu no estúdio. "Ele ficou paradinho em um canto, de ponta-cabeça, mas não arrisquei contar com a boa vontade dele. Ninguém sabe como entrou nem como saiu. Fomos para outro estúdio gravar", contou.

Inteligência artificial e regulamentação

O Dia do Dublador ocorre em meio ao debate sobre o avanço da inteligência artificial. Há mais de um ano, profissionais defendem a regulamentação do uso da tecnologia para impedir que gravações sejam usadas no treinamento de sistemas sem autorização. "A IA não precisa deixar de existir, mas precisa ser regulamentada o quanto antes. É questão de segurança pública", defendeu Lia. A categoria busca incluir cláusulas contratuais para impedir o uso das gravações em treinamento de IA.

Apesar dos avanços, Lia acredita que há um aspecto impossível de ser reproduzido por máquinas. "Interpretação é sentimento. Por que dizemos que uma pessoa tem interpretação robótica quando interpreta mal? Porque se você só fingir que está triste, não transmite tristeza. A máquina não é capaz de transmitir absolutamente nada", explicou. Em 2024, dubladores de todo o país estiveram em Brasília para cobrar a regulamentação da IA no setor artístico.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Orgulho da profissão

Para Lia, celebrar o Dia do Dublador é motivo de orgulho. "É uma honra enorme. Sinto um orgulho gigantesco da minha profissão. Simplesmente amo o que faço e sempre me dedico 200%. Espero que isso transpareça em cada personagem, dos menores aos maiores." Ela atribui a qualidade da dublagem brasileira à espontaneidade dos artistas. "A dublagem brasileira sempre foi muito espontânea e brincalhona. Para dar vida em português a um gringo na tela, você não pode ter medo de arriscar e, principalmente, de se divertir. O público percebe isso."

Por fim, Lia deixa um conselho para quem sonha seguir a carreira: estudar muito, investir em teatro, leitura e preparação vocal, além de manter a humildade. "Desenvolva sua interpretação com teatro, leitura, faça consultas com fonoaudiólogos para aumentar suas chances. Procure cursos de dublagem com profissionais ativos no mercado. As pessoas que mais trabalham são as humildes e abertas, além de serem ótimos atores", concluiu.