Desde 2010, o Acre tornou-se uma rota crucial para imigrantes que fogem de desastres e crises. O estado, que funciona como porta de entrada para quem busca trabalho, registrou 828 pedidos de refúgio em 2025, conforme o Relatório de Monitoramento da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). O acesso ocorre principalmente por Brasiléia e Assis Brasil, cidades na fronteira.
Mais de 45 nacionalidades em 16 anos
O doutor em geografia pela Universidade Federal do Acre (Ufac) José Alves Bairral afirma que, em 16 anos, o Acre recebeu imigrantes de mais de 45 nacionalidades. Diante desse cenário, o governo criou uma Política Estadual de Migração. “Recentemente, tem se observado que o aumento da migração envolve principalmente países da América do Sul. Os fatores são extremamente complexos, desde a busca por melhores condições de vida e trabalho”, explicou Bairral.
Nesta quinta-feira (25) celebra-se o Dia do Imigrante, e no sábado (20) foi o Dia Mundial do Migrante, datas que reforçam o debate sobre o fluxo migratório no estado.
Casas de passagem acolhem centenas
A gestora interina da Casa de Passagem para Migrantes de Rio Branco, Sabrina Ferreira, informou que o local chegou a acolher mais de 500 venezuelanos. “Aqui temos dois tipos de demandas: por demanda espontânea, quando eles chegam na frente da unidade pedindo acolhimento, ou quando são encaminhados das demais casas”, detalhou. Além da capital, há mais três casas de passagem: duas em Assis Brasil e uma em Epitaciolândia.
Mudança no perfil migratório
A região Norte, historicamente corredor migratório, mudou seu perfil. Antes atraía nordestinos e sulistas; hoje o maior fluxo é de imigrantes internacionais, especialmente venezuelanos. “Isso exige ação significativa do governo federal, estadual e municipal, e da sociedade civil, para que a legislação seja exercida e o migrante receba a acolhida devida”, afirmou Bairral.
Maria da Luz, gestora de políticas públicas do estado, destacou que o Acre oferece ajuda humanitária em Assis Brasil, Brasiléia, Epitaciolândia e Rio Branco, mantém abrigos, assistência social e parcerias com a ONU para garantir direitos, documentação e inclusão social e financeira. “A vida do migrante não é fácil, as pessoas não migram por que querem. Precisam ser acolhidas com dignidade e garantias de direitos”, concluiu.
Histórias de recomeço
Saint Charles, haitiano de 47 anos, chegou ao Acre em 2011 após o terremoto de 2010 que devastou o Haiti. “Muita gente morreu, o Haiti passava fome. Pensei em sair para ajudar minha família e buscar trabalho”, contou. Ele viajou de avião do Haiti ao Panamá, depois ao Equador, e de ônibus pelo Peru até Assis Brasil, onde tirou CPF, e seguiu a Rio Branco. Hoje trabalha como auxiliar de perecíveis em um supermercado.
Natália Escobar, venezuelana, está há dois meses na casa de passagem em Rio Branco. “Meu sonho é que meus filhos estudem e sejam alguém na vida, que ninguém os trate mal, que sejam profissionais e tenham um futuro para a família”, disse.



